quinta-feira, 30 de julho de 2015

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Segundo Betty, Coffin Ed já tinha matado um sujeito só porque ele tinha soltado um peido na sua frente; e Grave estourou com tiros os dois olhos de um homem que tinha apontado uma automática carregada para ele sem querer. Essas histórias corriam pelo Harlem, segundo Betty, e todo mundo ali comentava que os dois eram de atirar num homem morto, se o caixão por acaso se mexesse. Nos filmes, assassinos profissionais sempre usam pistolas .22 com silenciador. No entanto, quando Ed disse que a partir de agora eu teria que usar uma arma, em função da quantidade de droga deles que eu carregava por aí, usar uma .22 me pareceu algo idiota. Eu disse ao nerd na feira de armas Nassau Coliseum Gun Show, que eu queria duas pistolas .45 automáticas. Dois dias depois, eu estava descendo os montes Adirondack com Bárbara durante toda uma tarde, até que a terra ficou com um ar mais cuidado, e no comecinho da noite entramos em Saratoga Springs e passamos por uma rua que teve a insolência de chamar-se Broadway. Pensando bem, o lugar parecia uma Nova York antiga, com lojas muito distintas com nomes novaiorquinos, e toldos listrados protegiam as vitrines do sol. As pessoas que passeavam pela rua não tinham nada a ver com Onandaga, não havia um fazendeiro sequer entre eles; havia um monte de carrões chiques no trânsito, alguns com motoristas uniformizados, e uma gente que claramente pertencia às classes abastadas sentava-se nas varandas dos hotéis e abriam notebooks e tablets. Eu e Bárbara nos registramos no Grand Union, o mais caro de todos, com a varanda suspensa mais comprida e larga. Um rapaz levou nossas malas e outro pegou o carro dela para estacionar. Num jornal local na recepção me inteirei dos páreos do dia seguinte para orientar os apostadores. Não havia notícia nenhuma no jornal, a não ser sobre cavalos: no mês de janeiro em Saratoga ninguém estava interessado em mais nada, só nos cavalos, e assim até a imprensa da cidade se adaptava: notícias sobre cavalos, horóscopos sobre cavalos e até mesmo a previsão do tempo durante as corridas, como se o mundo fosse unicamente habitado por cavalos. No quarto, eu voltei a perguntar à Bárbara se era uma boa idéia abordar alguém para oferecer minha mercadoria e ela disse pelo amor de Deus não, K, ela mesma me apresentaria à possíveis compradores: ----- Eu queria te ver pensando um pouco menos nisso, meu bem(: eu sou muito rica, lembra (?) ----, ela disse. ----- Mas eu não (.) ------, a noite estava fria e me estendi de costas no chão da varanda, olhando as estrelas no alto. Felizmente eu sei como permanecer com uma mulher sem ter certos pensamentos detectados. Até hoje nunca assustei nenhuma, graças a este talento. Além do mais, a suíte que Bárbara reservou era perfeita, toda aberta, como se fosse um grande apartamento sem paredes ou um salão mobiliado, com uma varanda no alto sustentada por colunas à qual se chegava através de uma escada espiralada. Fumei um cigarro por ali e depois fiquei sentado na nossa cama escutando com atenção os movimentos dela antes do banho. Quando ouvi seus passos no piso do banheiro, parei o tempo. ----- A idéia de tentar fixar qualquer coisa com as cores da mente me impele, me fascina, me espaventa(!) -----, eu disse, pensando alto enquanto folheava meu caderno velho. Passei por ela enrolada numa toalha e sentei numa cadeira. A certa altura mergulhei tão profundamente na figura de Bárbara que de súbito ela desapareceu da minha vista: ----- Frágil-formidável no sexo, paisagem da coxa ao seio, do ventre ao lábio debruado (.) ----- , eu disse, e logo ela apareceu de novo no meu campo de visão: agora encontrei-a curvada, nua, vasculhando o fundo de uma mala na cama. Examinei seu perfil por meio minuto: tinha o rosto vivo, feliz, e um nariz que tinha aparência mais inteligente que seus olhos, se é que isso faz algum sentido. É preciso, no entanto, tomar cuidado quando avalio a inteligência dos olhos de uma mulher, quando estou num estado alterado de consciência (ou seja, sempre), pois o olhar de uma pessoa muda radicalmente de um instante para o outro, e é possível que eu a estivesse flagrando num momento de desatenção nada atraente. Bárbara mantinha os cantos dos lábios bem cerrados enquanto procurava alguma coisa na mala; eu não podia ver o que suas mãos tentavam encontrar entre aqueles agasalhos e leggins dobrados. Ela ficou encantada com minha reação diante de tanto luxo, especialmente quando me levantei da cadeira e testei a cama com um pulo lateral, e ela largou a toalha e pulou por cima de mim, e nós rolamos para um lado e depois para o outro, lutando de brincadeira mas confrontando nossa força física pra valer. Ela não era nenhuma molenga: ----- Já pratiquei karatê (.) -----, ela disse, mas eu a prendi pelos braços em pouco tempo, e ela teve que suplicar: ----- Ah , não, agora não(: deixa eu tomar banho primeiro (.) -----, de fato, ela tinha um plano um pouco maior que o meu para aquela noite: ----- Quero que você desça comigo e conheça o circo de Saratoga (.) -----, e correu para o banho. No centro do quarto, uma grande cesta de frutas jazia em uma mesa de café,com um cartão da gerência do hotel, e havia um bar lateral com uma bandeja de copos e taças de pé alto e garrafas de vinho tinto francês e uma garrafa de cristal lapidado quadrada com uma pequena corrente pendurada no gargalo, onde se lia Johnnie Walker Gold Label -18 anos, e uma outra onde se lia SCOTCH, e uma garrafa com sifão azul de vidro, e a luz da rua entrava um pouco pelas grandes janelas cortinadas que chegavam ao chão; a cama era imensa e o carpete grosso e macio. ''Oito barris de malte para o padre John Corr (.)'', pensei comigo, lembrando que essa frase era a primeira menção escrita ao uísque escocês na história. Consta de um documento de 1494 que listava impostos a pagar, mas suspeita-se que a bebida já era fabricada há muito mais tempo. ''Uma água pura e cristalina, uma linda flor cor-de-rosa chamada urze e um solo especial chamado turfa: está aí o segredo do uísque escocês (.) ''. Me servi uma dose de Scotch e entrei no banheiro segurando o copo, disposto a me sentar na tampa do vaso sanitário para assistir o banho de Bárbara.  Ela ainda não tinha entrado na água, mas o chuveiro estava ligado e ela estava nua: ----- A turfa é um solo orgânico único (eu disse) um material inflamável que faz muita fumaça e pouca chama (: é o que se usa no processo de secagem da cevada (maltagem) transferindo um sabor especial ao malte (: esse malte escocês fica dotado de aromas e sabores únicos cedidos pela urze, uma flor que cobre os campos montanhosos da Escócia (: a água da chuva banha as urzes, capta seu perfume e finalmente escorre pela turfa(: e isso tudo vem parar dentro de um copo de scotch whiskey (.) -----, Barbara me ouvia curiosa, perfeita contra o vidro do box; cismada com minha pronúncia: ----- Whisky não é whiskey (: a primeira palavra é exclusivamente para a bebida elaborada na Escócia (: o resto do mundo usa whiskey(: scotch é apenas o uísque escocês (: lindo sim: os uísques produzidos em ilhas escocesas tem a brisa marítima no sabor e o aroma, e nuances de salgado e de algas são herdadas pelas bebidas que passaram por um longo processo de envelhecimento a baixas temperaturas (: a madeira dos barris absorve a maresia e dissemina-a na bebida (.) -----, ela disse, enquanto eu a admirava: nos momentos que antecedem o banho de uma mulher, enquanto a água está escorrendo, sua nudez repentinamente libera todos os íons carregados de lascívia e ela torna-se integralmente artística: ----- O recepcionista reconheceu você logo de cara (: todo mundo ficou contente lá embaixo quando te viram (.) ----, comentei, pensando : ''Nua para poder banhar-se (: o 'banho': uma palavra tão lisa, macia e modesta que é possível apreciar as minúcias de sua beleza sem ser atrapalhado pela ereção impetuosa que eu estava escondendo na minha calça naquele momento. ----- Tenho quartos reservados aqui para todo o mês de corridas (: quer eu venha ou não , já se acostumaram com minhas festinhas (: no ano passado veio muita gente comigo (: dessa vez eu quis vir com você (.) ------, ela disse, enquanto eu bebericava meu scotch, e de repente ela entrou na água e se tornou aos meus olhos uma bailarina moderna, um riacho de águas cristalinas, uma dríade, uma naturista ou nudista, seus peitinhos deixando de ser peitinhos e passando a ser seios e, de tão tesudas que eram suas formas, elas sufocavam em mim o delicado admirador Ansel Adams que existe dentro de cada um de nós e atraíam para o fogo do meu corpo o apalpador, o punheteiro e o comedor insaciável. Isto ainda apesar dos seus encantos proto-sexuais, suas suaves auréolas abobadadas, o arco californiano de sua bunda no ponto em que sutilmente desembocava nas coxas, todos os quais pude examinar cuidadosamente com ela de pé sob a água. Tirei a roupa e entrei no banho com ela. Não que achasse que o que estava escrevendo na minha cabeça naquele instante fosse necessariamente bom segundo os padrões existentes: simplesmente estava agachado diante daquela que eu considerava a mulher  dos meus sonhos, que eu desejava como minha única audiência literária desde que ela tinha lido minha carta, chupando tão vorazmente os lados da sua vagina que criava automaticamente para ela uma personagem ''ela'' alternativa: uma para ela, outra só para sua vagina.  Era certo para mim que ela gostava mais de chupar bucetas do que ser chupada, nosso namoro era apenas um retiro literário para o meu falo tão duro quanto uma garrafa de Calistoga. Não, ela não queria nada entrando no seu cu: ''Isso eu posso te garantir, K(.)'', pensava comigo. Então nós nos arrumamos para sair: eu com minha jaqueta de piloto de caça e ela em um elegante blazer de linho azul  e calça branca; adorei a idéia de um relacionamento amoroso que estava subentendido em nossos preparativos para sermos vistos juntos. Até aquele momento, nos Estados Unidos, eu não havia me sentido mais do que um traficante ou garoto de programa. Nós descemos, passando pelo saguão do hotel cheio de gente sem ter o que fazer no começo da noite, e quando saímos a noite estava realmente muito fria, e Barbara sugeriu que pedíssemos o carro. Passamos por imponentes gramados sob a sombra de grandes árvores copadas que ocultavam casas imensas, aquele era um lugar bem desenvolvido e para mim era tentador não pensar em nada além dela: ficar ofuscado pela luz do seu oferecimento a ponto de esquecer todas as circunstâncias. ----- Porque se atrasaram tanto (?) -----, uma mulher perguntou à Barbara quando entramos no casarão (era uma festa pequena, só para os que já tinham ''emprestado''  obras para Barbara. Todos bebiam por ali, aparentemente patrocinados por uma marca de cigarros. Uma escultora africana chamada Susan Eula estava no escritório do primeiro andar fazendo uma escultura de Barbara: ----- Ela diz que precisa olhar para mim mas acho que ela só quer um lugar grátis para trabalhar em Nova York (: ela me vê como uma hermafrodita (: é uma escultora terrível, não faz diferença se eu poso para ela todo dia ou não (: de qualquer jeito, vai ficar parecido com um totem (.) ----, Barbara disse, aos risos. ---- Tudo certo (: ninguém pode saber até que ponto  sua arte vai chegar (disse Susan Eula) -----, a outra peça era maior, um estúdio, com as paredes todas brancas e o chão branco. ---- Sei, mas onde está(?) -----, perguntou Barbara. ----- Ali (.) ----- apontou Susan .  ----- Você já produziu muitas esculturas ótimas, Susan (Barbara disse) mas nunca as realizou (: eu vou te encomendar alguma coisa séria e dar os materiais para você, ok(?) eu é que não quero nenhuma desavença com possíveis celebridades da vanguarda futura (.) ----- os olhos de Susan  agora reluziam como dois faróis com megawatts de ganância. Barbara virou-se para mim e fez um olhar perplexo, de aveludada  estupefação. Estava frio como os diabos àquela hora, uns sete graus, e aquela gente toda vestindo agasalhos caros começou a chegar na mansão. Claro, eu e Barbara éramos muito diferentes: nossos perfis mentais, espirituais  ou de caráter estavam  afastados léguas um do outro, mas havia uma loucura sexual no ar que estava submergindo nossos mundos por igual: -----Picasso também passou  seu último período obcecado por aberturas sexuais e falos (.) -----, eu comentei , recordando uma declaração que Kristen Guner tinha feito após alguns drinques; ela era risonha, alegre e sentia-se visivelmente desinibida na festa, ao ponto de tornar-se brutal: ---- Um cérebro de judeu, uma beleza nórdica e um caralho bem grande, é disso que as mulheres precisam(.) -----, meu Deus, eu olhei para Barbara e ela estava rindo : ----- Esta é apenas sua idéia do homem ideal, Kristen (.) -----, ela disse, enquanto eu pensava com renovada simpatia em visões lunares: ''Artemis, castidade lunar (.) ''. Naquela festa, se não era Bruch, abrindo caminho à força nos nossos ouvidos para suas confissões a base de coca; se não era Margotte (porque também ela estava voltando a pensar em coisas do coração após um ano e viuvez) ; mais conversas do que esperanças reais, certo, mais discussoes, laboriosos exames ad infinitum; enfim... se não era Feffer com suas numerosas aventuras de alcova... então lá vinha Kristen com suas confidências brutais e hilariantes. ''Caos comunicativo (.) '', eu pensava, bocejando: mas eu tinha minhas próprias idéias a respeito daquele caos (eu tinha idéias a respeito de tudo, intensamente particulares. ''Mas '' me perguntava ''qual outro meio de ter-se um comportamento próprio (?) ''. O que eu via ali eram pessoas fazendo mímicas caricaturais umas das outras, numa espécie de espelho que reflete espelho continuamente. Aquele que não imita está perdido, e aquele que está perdido não existe. Certamente eu admitia a possibilidade de errar para todo mundo, sobretudo pra mim; eu era brasileiro e possivelmente o que eu estava vendo ali era um fenômeno americano, exportado massivamente para o resto do mundo. Muitas importações européias também tiveram grande sucesso nos Estados Unidos há décadas: psicanálise, existencialismo, desconstrucionismo, etc. Tudo mais ou menos relacionado aos destroços de uma revolução sexual drogada e insólita. Em todo caso, vendi uma quantia considerável de skunk, pó e heroína para toda aquela gente esquisita, e depois de tanta reflexão a única coisa que eu via neles eram ricos consumidores de tóxicos e mais nada. E meu sono tinha ido embora quando eu e Barbara subimos para um quarto para fumar com a encantadora, livre, riquíssima (e um tanto vulgar), Kristen Guner; logo estávamos todos voando debaixo de espessas nuvens azuladas. ----- Porque não nos encontramos em Nova York, Kristen (?) ----, Barbara perguntou, soprando fumaça de skunk pro alto; ela achou a idéia excelente: só não pôde dizer quando, pois estava sempre viajando. Ela era amante de um rico fabricante de sapatos e nem sempre estava ''livre''. Pensei que seria bom encontrar Kristen de novo em NY: ela havia me encomendado uma quantidade absurda de cocaína para o dia seguinte: quase tudo o que eu tinha na mochila. Seu amigo em Saratoga, Jerry, um ex-boxeador que agora estudava direito, tinha saído com ela para jantar e, antes de deixá-la em casa, eles foderam no carro dele. Ela se encontraria comigo na tarde do dia seguinte, no estacionamento do hipódromo, para pegar a droga e me passar a grana. O Dr. Tao (Kristen disse) era o diretor do hipódromo, e um grande amigo dela. ----- Ele vai gostar de te conhecer, K(.) ----, ela disse, fazendo um sorridente gesto com os dedos nas narinas ----- Ele é um poeta (: hahahah(!) -----, completou, às gargalhadas. ----- Acho que você não vai deixar muita coisa pra ele, Kristen (:em todo caso, lembro que Federico Fellini costumava citar em suas entrevistas uma frase atribuída à Nietzsche que eu nunca encontrei em seus livros, dizia: '' O gênio de um homem se encontra em suas narinas (.) '' -----, respondi. Eu e Barbara fomos embora. Chegamos à porta do quarto no Grand Union, um nos braços do outro, ela bem alta. ----- Sinto que voce vai sumir quando voltarmos para NY , K(.) -----, ela disse, saltando sobre mim e manipulando minha braguilha com uma exatidão criminosa. ----- Só se me matarem e sumirem com meu corpo (.) -----, fiquei dentro dela por muito tempo; como das outras ocasiões, ela gozava vezes seguidas, guinchando e grunhindo como uma presa acuada. Sua boca parecia ter-se tornado maior, mais ampla, extremamente lasciva; seus olhos giravam nas órbitas como se estivesse tendo um ataque. Depois de uns vinte minutos, tirei o pau para fora para esfriar a coisa, a sensação era maravilhosa. 

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