Barbara havia conseguido transformar a festa de Natal daquele ano numa festa da sua revista, e eu acabei indo mesmo que Berman tivesse desistido na última hora (tivesse ou não sentido, na madrugada anterior eu estava de folga e escrevi a carta mais louca que um homem já escreveu para uma mulher em língua inglesa:
''Barbara, até hoje tudo o que fiz na vida acabou desastrosamente. Não estou nem mesmo certo do que estou escrevendo neste momento. Eu não compactuo com mentiras e isso irrita as pessoas profundamente; a contrariedade leva muitos a se defenderem contra o meu comportamento . A frase ''porque não escrever à ela(?)'' envolve-me, como desde o primeiro dia em que te vi, num atoleiro de irremediável confusão. Sempre escrevi movido pelo desejo de libertar a imaginação de todas as pessoas, porque (penso) sem o apoio do mundo inteiro, sem um mundo imaginativamente unificado, a liberdade da imaginação se torna um vício. Foi o que aconteceu com a literatura e a arte contemporânea. Mas eu não sinto falta nenhuma de sentir esperança na comunicação com o próximo. Eu nunca me preocupei seriamente com a questao do gênio: já li sobre a vida dos gênios revolucionários da poesia e eles foram sanguessugas desprezíveis, nutrindo-se do sangue da vida e das pessoas; a coisa mais importante para Rimbaud ou Lautreamont era fazer-se inútil, ser absorvido pelo fluxo comum e colonizar o inconsciente humano. sempre que um escritor se mostra melhor que os outros de todos os lados surgem ataques: os vôos mais loucos da poesia, os sonhos mais profundos, as visões mais alucinantes, nada mais são do que toscos hieróglifos cinzelados em dor e tristeza para comemorar um evento que é intransmissível e, frequentemente, ininteligível. As grandes obras de arte servem para nos fazer sonhar com aquilo que é fluida expansão da consciência. Com grandes estados de consciência alterada. A arte de ---- (continua
Coloquei a carta na minha mochila e me deitei na cama com os olhos bem abertos, pesquisando a escuridão como quem busca ver o próprio futuro; mas via apenas Berman caminhando meio bêbada com os sapatos azuis de salto alto, e as pupilas dela estavam dilatadas (no sonho, mais adiante, um fotógrafo da Times fotografava Barbara fotografando Victor fotografando Berman fotografando Melissa fotografando-me, enquanto eu trabalhava atrás do balcão do bar, e ela dizia: ---- Pois você vai ter que subir na vida fodendo com quem você não quer foder(: recompensa(: um relógio de cobra de Bulgari , nada mais(.) -----, e passei heroína sob meu nariz (cavalgando o dragão pela segunda vez; e lembrei daquele carro passando numa travessa escura da Convent Avenue, no Harlem, como jamais tinha visto até aquela noite. Os faróis clareavam a rua por instantes e com a iluminação do painel dava para ver os três sujeitos dentro e a garota de sempre: uma bela africana de olhos brilhantes e um sorriso alvo em contraste com a pele preta. Senti um calafrio: era Betty de novo. De cara me pareceu impossível que minha Sassafrás estivesse naquele carro com chapa de concessionária, ao lado de figuras tão irreais. Através de Betty, eu tinha me tornado alguém com fama de bom negociante entre aqueles sujeitos; um ''mágico. ----- Seu amiguinho (o motorista disse para Betty) está fazendo um belo serviço pra nós (.) -----, me passando vários saquinhos de 100 gramas de skunk e 30 gramas de heroína. ----- Cuidado com a ''auto-medicação'', K (.) -----, Betty disse, rindo com uma expressão de surpresa no rosto, acompanhada de um rápido giro de cabeça. Entrei no carro e ela ficou entre eu e o capo no banco de trás; no momento seguinte, estava ajoelhada no banco , olhando pela janela traseira. ----- Alguém está nos seguindo (ela disse) não olhe (!) -----, mas eu estava muito feliz para me incomodar. Pensava que era apenas um pouquinho de histeria, observando-a atentamente enquanto os homens trocavam ordens rápidas e alternadas para seguir por aqui ou por ali. ''As ruas estavam escuras e não era só da noite(.)'', o carro era preto e Betty estava vestida de preto. Apanhei a mão dela e apertei-a suavemente. Ela esboçou um sorriso, como que dizendo: ------ Você sabe, K(... negócios são negócios (.) -----, e subitamente tive consciência do perigo, associando os fatos à minha louca maneira. Refleti...ninguém estava nos seguindo... tudo coca e paranóia de onda ruim: mas alguém estava atrás dela novamente, por aí. ''Isso nunca vai mudar(.)'', pensei (nada do que ela contava nunca fazia sentido, e talvez eu estivesse me envolvendo com um monstro, o mais delicioso monstro imaginável. No apartamento da Rua 125, Grave e Ed estavam na mesa perto do fogão, os sobretudos dobrados sobre os encostos das cadeiras de madeira e gotas de suor brotavam no couro cabeludo deles e escorriam pelos seus rostos latinos. Ed já tinha cabelos grisalhos e uma cicatriz em forma de meia-lua no rosto feita por Grave com o cano do revólver : ----- Ele ficou alucinado por terem jogado ácido nas suas costas(.) ----, Grave disse, mas o rosto rude e encaroçado de Grave não ficava atrás; ele chupou a cartilagem da última asa de frango e colocou os pequenos ossos brancos na pilha que já havia em seu prato. Então, disse com voz baixa: ----- Aposto uma garrafa que ele não consegue vender tudo até o ano-novo(.) -----, eu analisava a quantidade que tinha me comprometido à vender.Vinham empurrando cada vez mais pra cima de mim. O bando de Cásper não era gentil, mas nutriam simpatia por seus colaboradores e eram particularmente gentis comigo . Me chamavam de ''mágico'', por causa da velocidade com que eu escoava a mercadoria deles na noite de Nova York. A destreza é que importava: um exercício igual à andar como um equilibrista; eu tinha flexibilidade e faro, podia entrar na cabeça de alguém na boate à metros de distância do balcão do bar, e saber num estalo se ele ou ela estavam atrás (nunca errava: tinha a visão interior apurada e podia ouvir o silêncio tagarela dentro da cabeça das pessoas . ----- Talvez uma garrafa seja pouco(: dobro a aposta que ele consegue(.) -----, Ed disse. ----- Que merda de aposta é essa, pessoal (?) -----, perguntei à eles, tentando rir. ----- Andei comendo uma oficial chamada Ema Limme (contou Ed) comi numa daquelas viaturas Victoria Crow já que ela é casada e não gosta muito de passear (.) -----, Grave riu, olhando para ele cheio de gratidão: ----- Ed está muito conversador hoje(: ele só está querendo dizer que não há com o quê se preocupar (.) ----, e sem que ninguém percebesse, Grave já estava com o revólver niquelado na mão, esperando que eu e Betty saíssemos com a droga deles e só voltássemos dias depois. No táxi, senti a mão hesitante de Betty na minha perna. Ela se tornava mais inocente aos meus olhos à medida que eu pensava nela mais diabolicamente. Meus verdadeiros pensamentos ela nunca conseguia penetrar, penetrava mais fundo do que o pensamento, lendo minha situação espiritual dentro dos meus olhos como se tivesse antenas. E logo percebia que, qualquer que fosse o jogo que fingisse jogar comigo, tinha encontrado seu igual. O motorista tinha parado o táxi, pedi para que ele esperasse um pouco adiante na West 9 th: estava de frente para Betty no banco de trás, as mãos apertadas, os joelhos tocando-se, um fogo correndo através das veias (como em alguma cerimônia antiga, o silêncio quebrado apenas pelo ronco do motor. ---- Telefono amanhã (ela disse) inclinando-se para um último beijo(: estou gostando do garoto mais estranho da terra(: voce me assusta, K(: mas acredite em mim sempre, se não te conto tudo sobre minha vida é porque você também é assim comigo(.) ---- ela parecia sorver a música silenciosa da noite e se banhar no verniz da falsa honestidade até quase parecer uma santa, o que me fazia pensar no modo como meu mundo agora girava como uma bola maligna jogada por Deus. As cortinas do meu quarto estavam fechadas quando eu entrei e foram iluminadas por um clarão súbito. Fechei os olhos rapidamente e logo depois vi Melissa saindo do chuveiro enrolada numa toalha, os olhos tortos. ----- Como você entrou aqui (?) ----, perguntei, preocupado com aquilo. ---- Fiz uma cópia da chave(.) -----, ela disse, e me dei conta de que, perigosamente, eu havia perdido o pouco controle que ainda tinha sobre a vida.
''Barbara, sonho constantemente com um novo mundo resplandescente que desmorona assim que acendo a luz do quarto; existe então um mundo em mim que é inteiramente diverso de qualquer mundo conhecido. Não o julgo propriedade minha, mas o ângulo privilegiado de minha visão é exclusivo e portanto único. Se falo com alguém a linguagem da minha visão, ninguém me entende; o edifício mais colossal poderá ser erguido e no entanto permanecer invisível. Este pensamento deve ser aceito como premissa. Qualquer pessoa que busque reconhecimento está apartada da vida espiritual. Ao mesmo tempo, me pergunto para quê construir um templo invisível? Já escrevi sobre isso um milhão de palavras. Mas poderia também dizer: um milhão de folhas de capim.. Outro dia eu repousava no escuro, e num estalo tudo aquilo que só eu via estava aqui de novo; eu era um galho flutuando na corrente japonesa de um nanquim psicodélico. Voltava ao simples abracadabra da meditação, que faz tijolos e degraus, ao esboço rude, ao templo invisível que deveria tomar meu sangue e meus pensamentos e revelar-se na luz omnisciente. Levantei-me , depois, e acendi uma ---- (continua)
A decoração e a comida e a casa de Barbara Berenson em Montauk eram como a página central da House and Garden. Barbara não havia convidado ninguém interessante, nenhuma beldade notável, apenas colaboradores de sua revista, mas havia muito caviar: caviar tirado de uma lata enorme. Todas as meninas da família dela eram loiras estonteantes, bronzeadas e californianas; mas (segundo Victor Blythe) seus irmãos eram só ''arrumadinhos''. Na noite de Natal, Barbara estava usando uma linda ametista Fabergé enquanto eu calculava o estrago que lhe entregar minha carta poderia causar. Mas ela me perguntou: ---- O que voce tem escrito ultimamente, K(?) -----, e eu não resisti: ----- Em detalhe tudo sobre sua vida sexual(: sexo com Barbara Berenson e tudo o mais, como ela era penetrada e gemia nas noites (.) ----, e estendi para ela a carta que tirei do bolso junto com um saquinho de 100 gramas do melhor skunk que eu conhecia em Nova York. Acrescentei: ---- Seu presente de Natal (.)----, e ela adorou o presente, e ficou intrigada com a carta:----- É para ler agora (?) ----, perguntou ela. ----- Por favor, não (.) ----- respondi. Naquele momento, Victor Blythe entrou na sala e acho que ele passou alguma coca para Barbara, dizendo: ---- É a última que tenho (.) -----, entao eu calculei logo que venderia toda minha mercadoria com facilidade por ali. Barbara foi até o banheiro e voltou como um zumbi. Foi estranho (havia muita gente na casa bebendo) pareceu-me que ela tinha dado uns tiros e lido um pedaço da carta; seu comportamento mais atencioso comigo parecia querer dizer que ela estava realmente me aceitando como o novo menino Jesus ou algo assim. ''Não existe avatar com mais de 40 anos (.) ----, eu disse: ----- Os Budas são como eu, não como ninguém mais (.) -----, as pessoas foram capotando uma a uma, de tanto Dom Perignon. No quarto se reuniram algumas pessoas mais tarde, e ela abriu seu presente de Natal. Havia roupas novas por toda parte e uma das garotas no quarto passava-me a impressão de ser apaixonada por Barbara: bem, ouve um momento em que restaram nós três no quarto; vi, pela maneira como Lucy olhava para ela, que gostava mais dela que eu, que tinha mais em comum com ela do que eu jamais teria; gostei imensamente dela: era uma garota correta, honesta com seus sentimentos até a medula dos ossos, bondosa, atenciosa, o tipo que daria o que se pode chamar de uma boa amante. Barbara disse que estava procurando um novo apartamento para morar e eu sugeri Park Avenue, mas ela disse que ''tinha uma imagem para proteger''. ----- Para ''zelar'', você quer dizer(?) -----, perguntei. ----- Não , para proteger mesmo (risos) para esconder (mais risos) ---- para ''editar'' (.) -----, disse ela, e inesperadamente começou a mostrar para mim e Lucy fotos dela nua com dezesseis anos, uma quantidade generosa de pele. Voltei a me lembrar da carta. ---- Quem tirou essas fotos , Barbara(?) seu primeiro namorado (?) ----, perguntei. ---- ''Namorada'' (.) ----, respondeu-me, acrescentando que no ano passado a mesma pessoa havia vindo à Nova York só para pedir sua mão em casamento. Para o meu espanto, Lucy saiu do quarto junto comigo, e Barbara dormiu sozinha. Assim que fechei a porta atrás de mim, no quarto de hóspedes, desejei que ela não lesse minha carta, e fiquei um tempo remoendo frases que eu tinha escrito.
''Barbara, uso tantas frases extravagantes nessa carta porque não sou capaz de dizer essas coisas pessoalmente sem parecer ridículo; e talvez tudo isso seja uma desculpa para algo que nem por escrito fui capaz de dizer ainda. ''O que meu coração concebe no escuro é batizado na luz (.)''. Quando lembro-me do seu rosto me invade um sentimento tão forte de exaltação que me sinto como se estivesse escrevendo uma carta para o próprio Criador. O calor da lembrança perdura noite adentro, fluindo de volta do outro lado do horizonte curvo. Não podia ter escolhido hor ----- (continua)
Sol. O caseiro ficou excitado durante todo o fim de semana porque Barbara tinha dito à ele que lhe compraria um jipe novo de presente de Natal. Lucy e Victor Blythe discutiam a capa da nova edição da revista: ele queria que eu colocasse alguma coisa escrita e não autoral nas margens e eu, educadamente, disse que preferia não mexer com isso e que estava satisfeito após vender metade do meu estoque para ele e seus ''amigos'' na praia mais cedo. Jean Lambert estava sentado na areia com um cachorro enorme analisando os saquinhos que eu tinha lhe passado. Eu o ignorei por algum tempo e depois vi que era Robert Di Mona, o marchand italiano, quem tinha deixado o cachorro com ele para ir experimentar a erva dentro do seu carro no estacionamento. Falavamos um pouco sobre generalidades artísticas e ele quis arrancar-me um saquinho extra de heroína, e então Victor o convidou para o almoço na casa de Barbara. Ele veio com seu namorado, Peter, que ficou beijando Victor escondido , na cozinha. Mas todos estavam se entendendo bem. ----- Compro arte desde os vinte anos de idade e empilho tudo em minha casa em Bruxelas como os Collyer Brothers (.) -----, Jean disse-me. Eu fiquei entrando e saindo do almoço porque Lucy e outras lésbicas estavam pintando uma tela enorme com uma vassoura de esponja nos fundos da casa. Antedi dois telefonemas de Grave e conversamos por código: ---- Acho que você vai perder aquelas garrafas(.) ----- De tarde uma garota sueca apareceu na casa unicamente para perguntar quem estava vendendo skunk e minha surpresa foi total quando me dei conta de que ninguém ali sabia quem era ela. Coloquei um baseado para fumarmos no ateliê dos fundos e no fim ganhei vários beijos suecos na boca e ela comprou todo o skunk que restava na minha mochila. Barbara veio me buscar para participar de uma pequena ceia que uma mulher chamada Diane von nao sei das quantas estava improvisando no andar de cima. Eu pude notar que alguns serviçais ali tinham medo de que as pessoas desmaiassem de chapadas; a maioria delas estava sentada em cadeiras de praia com a cabeça para trás e cantando para si mesmas. Colocavam e tiravam os óculos escuros, e a parte de cima de seus corpos pareciam gelatina de carne. Quando finalmente tive um momento exclusivo com Bárbara, ela pareceu estar fazendo o melhor para entender o que havia lido. O meu eu verdadeiro, aquele que prontamente perdeu as rédeas daquela conversa, era quase um estranho para mim: ----- Eu sei que para você eu sou apenas uma mulher rica e bonita e você conhece um pouco da vida que levo, K e tem fortes intuições e fica imaginando coisas sobre mim (.) ----- ela disse, levantando a taça vazia para que eu a enchesse de Dom Perignon. ----- Fico contente que você tenha lido minha carta (.) ----, minha cabeça estava dando voltas enquanto ela levava a taça aos lábios, imaginando que aquilo eram as preliminares de uma estranha descoberta. Ela veio e sentou-se no meu colo, dizendo: ----- Vamos conversar então (.) -----, e entornou um pouco de bebida dentro da minha boca. Fiquei mais assustado que surpreso, e completamente desconcertado quando ela disse: ----- Eu nunca fiquei com um homem na vida (.) -----algo em que realmente eu não conseguia acreditar. : ---- Nunca, acredita nisto (?) ----, e começou a rir na minha cara. ----- Isso que você está fazendo comigo é cruel, Barbara (.) ----- eu disse. Um momento de silêncio, olhos nos olhos. ----- Você imagina muitas coisas sobre mim , não é (?) mas se quisesse algo mais, teria que me conhecer melhor, certo (?) -----, perguntou-me. Admiti que ela tinha razão, mas argumentei que a visão que eu estava tendo dos peitos dela no sutiã, naquele momento, estando o sutiã visível sob sua blusa, até que era bem maravilhosa. ---- Espera um momento, K (.) -----, ela se levantou do meu colo e acendeu um cigarro. Olhou para mim: -----O problema com você é que você nunca se entregou à um trabalho digno de suas forças(: você precisa de problemas maiores, dificuldades maiores, você é alérgico à banalidades, pois só produz satisfatoriamente quando muito pressionado(: essa vida que você leva não é adequada para você(: você foi feito para levar uma vida perigosa (.) ----, ela disse. ----- Receio que seja justamente o contrário, Bárbara (.) -----, observei. ----- Mas você sabe que é... protegido, não sabe(?) quantas vezes você esteve próximo de morrer e as coisas tomaram um rumo tão insólito que você acabou se safando (?) pense bem... quantos crimes você já deve ter cometido, crimes cuja autoria ninguém nunca lhe atribuiria ( ok, talvez eu exagere: mas como disse na carta, você não está agora com um affair tão perigoso, um caso que, se você não tivesse nascido sob uma estrela invencível, já teria lhe arruinado (?) você me olha de uma maneira estranha, apaixonada, mas isso não é nenhuma paixão; quando você escreveu aquela carta, sabia exatamente que iria ter uma mínima chance, calculando cada detalhe imaginável de tudo; você não tem dinheiro, nem poder e nem influência, mas quem quer que seja sua mulher, eu tenho pena dela; você vê as mulheres como mais fortes que você, porque duvida de si mesmo constantemente, no seu cálculo absurdo de tudo, mas você é o mais forte, sempre será o mais forte em qualquer relação, porque você só é capaz de pensar em si mesmo, no seu destino anônimo, e ama a vida mais do que a si mesmo; se voce fosse um pouquinho mais embrutecido eu teria medo de você, poderia se tornar um fanático perigoso, mas eu sei que você está pronto para fazer qualquer coisa a fim de satisfazer seus instintos (... e talvez eu lhe corresponda, sabia(?) você continua me olhando de uma maneira estranha, se perguntando de onde foi que eu tirei todas essas conclusões, com quem foi que eu andei conversando(: veja só , a poucos instantes eu olhei para você lá embaixo e vi que você estava esperando ansiosamente que eu viesse e iniciasse algo. Sabia que isso aconteceria e sou capaz de jurar que você tinha o controle milimétrico do tempo, dentro de você há sempre uma carta na manga esperando a poeira baixar, e agora eu vim até você e você está paralisado (um pouco assustado, hein(?) -----, ela disse, e assenti com a cabeça, indefeso. Seu sermão continuava: ----- Você vive meio confuso porque está sempre olhando além do objeto do seu amor, procurando algo que jamais encontrará (.) ----, levantei-me da cadeira, fui até lá. Quando afastei os lábios dela olhei no fundo dos seus grandes olhos verdes, colocando os braços em volta da sua cintura. Para ela aquilo tudo era floreio verbal, seu prazer exuberante estava mais tanto em mostrar-se chocante quanto em realmente sentir a carga sexual do nosso idílio.
''Barbara, até hoje tudo o que fiz na vida acabou desastrosamente. Não estou nem mesmo certo do que estou escrevendo neste momento. Eu não compactuo com mentiras e isso irrita as pessoas profundamente; a contrariedade leva muitos a se defenderem contra o meu comportamento . A frase ''porque não escrever à ela(?)'' envolve-me, como desde o primeiro dia em que te vi, num atoleiro de irremediável confusão. Sempre escrevi movido pelo desejo de libertar a imaginação de todas as pessoas, porque (penso) sem o apoio do mundo inteiro, sem um mundo imaginativamente unificado, a liberdade da imaginação se torna um vício. Foi o que aconteceu com a literatura e a arte contemporânea. Mas eu não sinto falta nenhuma de sentir esperança na comunicação com o próximo. Eu nunca me preocupei seriamente com a questao do gênio: já li sobre a vida dos gênios revolucionários da poesia e eles foram sanguessugas desprezíveis, nutrindo-se do sangue da vida e das pessoas; a coisa mais importante para Rimbaud ou Lautreamont era fazer-se inútil, ser absorvido pelo fluxo comum e colonizar o inconsciente humano. sempre que um escritor se mostra melhor que os outros de todos os lados surgem ataques: os vôos mais loucos da poesia, os sonhos mais profundos, as visões mais alucinantes, nada mais são do que toscos hieróglifos cinzelados em dor e tristeza para comemorar um evento que é intransmissível e, frequentemente, ininteligível. As grandes obras de arte servem para nos fazer sonhar com aquilo que é fluida expansão da consciência. Com grandes estados de consciência alterada. A arte de ---- (continua
Coloquei a carta na minha mochila e me deitei na cama com os olhos bem abertos, pesquisando a escuridão como quem busca ver o próprio futuro; mas via apenas Berman caminhando meio bêbada com os sapatos azuis de salto alto, e as pupilas dela estavam dilatadas (no sonho, mais adiante, um fotógrafo da Times fotografava Barbara fotografando Victor fotografando Berman fotografando Melissa fotografando-me, enquanto eu trabalhava atrás do balcão do bar, e ela dizia: ---- Pois você vai ter que subir na vida fodendo com quem você não quer foder(: recompensa(: um relógio de cobra de Bulgari , nada mais(.) -----, e passei heroína sob meu nariz (cavalgando o dragão pela segunda vez; e lembrei daquele carro passando numa travessa escura da Convent Avenue, no Harlem, como jamais tinha visto até aquela noite. Os faróis clareavam a rua por instantes e com a iluminação do painel dava para ver os três sujeitos dentro e a garota de sempre: uma bela africana de olhos brilhantes e um sorriso alvo em contraste com a pele preta. Senti um calafrio: era Betty de novo. De cara me pareceu impossível que minha Sassafrás estivesse naquele carro com chapa de concessionária, ao lado de figuras tão irreais. Através de Betty, eu tinha me tornado alguém com fama de bom negociante entre aqueles sujeitos; um ''mágico. ----- Seu amiguinho (o motorista disse para Betty) está fazendo um belo serviço pra nós (.) -----, me passando vários saquinhos de 100 gramas de skunk e 30 gramas de heroína. ----- Cuidado com a ''auto-medicação'', K (.) -----, Betty disse, rindo com uma expressão de surpresa no rosto, acompanhada de um rápido giro de cabeça. Entrei no carro e ela ficou entre eu e o capo no banco de trás; no momento seguinte, estava ajoelhada no banco , olhando pela janela traseira. ----- Alguém está nos seguindo (ela disse) não olhe (!) -----, mas eu estava muito feliz para me incomodar. Pensava que era apenas um pouquinho de histeria, observando-a atentamente enquanto os homens trocavam ordens rápidas e alternadas para seguir por aqui ou por ali. ''As ruas estavam escuras e não era só da noite(.)'', o carro era preto e Betty estava vestida de preto. Apanhei a mão dela e apertei-a suavemente. Ela esboçou um sorriso, como que dizendo: ------ Você sabe, K(... negócios são negócios (.) -----, e subitamente tive consciência do perigo, associando os fatos à minha louca maneira. Refleti...ninguém estava nos seguindo... tudo coca e paranóia de onda ruim: mas alguém estava atrás dela novamente, por aí. ''Isso nunca vai mudar(.)'', pensei (nada do que ela contava nunca fazia sentido, e talvez eu estivesse me envolvendo com um monstro, o mais delicioso monstro imaginável. No apartamento da Rua 125, Grave e Ed estavam na mesa perto do fogão, os sobretudos dobrados sobre os encostos das cadeiras de madeira e gotas de suor brotavam no couro cabeludo deles e escorriam pelos seus rostos latinos. Ed já tinha cabelos grisalhos e uma cicatriz em forma de meia-lua no rosto feita por Grave com o cano do revólver : ----- Ele ficou alucinado por terem jogado ácido nas suas costas(.) ----, Grave disse, mas o rosto rude e encaroçado de Grave não ficava atrás; ele chupou a cartilagem da última asa de frango e colocou os pequenos ossos brancos na pilha que já havia em seu prato. Então, disse com voz baixa: ----- Aposto uma garrafa que ele não consegue vender tudo até o ano-novo(.) -----, eu analisava a quantidade que tinha me comprometido à vender.Vinham empurrando cada vez mais pra cima de mim. O bando de Cásper não era gentil, mas nutriam simpatia por seus colaboradores e eram particularmente gentis comigo . Me chamavam de ''mágico'', por causa da velocidade com que eu escoava a mercadoria deles na noite de Nova York. A destreza é que importava: um exercício igual à andar como um equilibrista; eu tinha flexibilidade e faro, podia entrar na cabeça de alguém na boate à metros de distância do balcão do bar, e saber num estalo se ele ou ela estavam atrás (nunca errava: tinha a visão interior apurada e podia ouvir o silêncio tagarela dentro da cabeça das pessoas . ----- Talvez uma garrafa seja pouco(: dobro a aposta que ele consegue(.) -----, Ed disse. ----- Que merda de aposta é essa, pessoal (?) -----, perguntei à eles, tentando rir. ----- Andei comendo uma oficial chamada Ema Limme (contou Ed) comi numa daquelas viaturas Victoria Crow já que ela é casada e não gosta muito de passear (.) -----, Grave riu, olhando para ele cheio de gratidão: ----- Ed está muito conversador hoje(: ele só está querendo dizer que não há com o quê se preocupar (.) ----, e sem que ninguém percebesse, Grave já estava com o revólver niquelado na mão, esperando que eu e Betty saíssemos com a droga deles e só voltássemos dias depois. No táxi, senti a mão hesitante de Betty na minha perna. Ela se tornava mais inocente aos meus olhos à medida que eu pensava nela mais diabolicamente. Meus verdadeiros pensamentos ela nunca conseguia penetrar, penetrava mais fundo do que o pensamento, lendo minha situação espiritual dentro dos meus olhos como se tivesse antenas. E logo percebia que, qualquer que fosse o jogo que fingisse jogar comigo, tinha encontrado seu igual. O motorista tinha parado o táxi, pedi para que ele esperasse um pouco adiante na West 9 th: estava de frente para Betty no banco de trás, as mãos apertadas, os joelhos tocando-se, um fogo correndo através das veias (como em alguma cerimônia antiga, o silêncio quebrado apenas pelo ronco do motor. ---- Telefono amanhã (ela disse) inclinando-se para um último beijo(: estou gostando do garoto mais estranho da terra(: voce me assusta, K(: mas acredite em mim sempre, se não te conto tudo sobre minha vida é porque você também é assim comigo(.) ---- ela parecia sorver a música silenciosa da noite e se banhar no verniz da falsa honestidade até quase parecer uma santa, o que me fazia pensar no modo como meu mundo agora girava como uma bola maligna jogada por Deus. As cortinas do meu quarto estavam fechadas quando eu entrei e foram iluminadas por um clarão súbito. Fechei os olhos rapidamente e logo depois vi Melissa saindo do chuveiro enrolada numa toalha, os olhos tortos. ----- Como você entrou aqui (?) ----, perguntei, preocupado com aquilo. ---- Fiz uma cópia da chave(.) -----, ela disse, e me dei conta de que, perigosamente, eu havia perdido o pouco controle que ainda tinha sobre a vida.
''Barbara, sonho constantemente com um novo mundo resplandescente que desmorona assim que acendo a luz do quarto; existe então um mundo em mim que é inteiramente diverso de qualquer mundo conhecido. Não o julgo propriedade minha, mas o ângulo privilegiado de minha visão é exclusivo e portanto único. Se falo com alguém a linguagem da minha visão, ninguém me entende; o edifício mais colossal poderá ser erguido e no entanto permanecer invisível. Este pensamento deve ser aceito como premissa. Qualquer pessoa que busque reconhecimento está apartada da vida espiritual. Ao mesmo tempo, me pergunto para quê construir um templo invisível? Já escrevi sobre isso um milhão de palavras. Mas poderia também dizer: um milhão de folhas de capim.. Outro dia eu repousava no escuro, e num estalo tudo aquilo que só eu via estava aqui de novo; eu era um galho flutuando na corrente japonesa de um nanquim psicodélico. Voltava ao simples abracadabra da meditação, que faz tijolos e degraus, ao esboço rude, ao templo invisível que deveria tomar meu sangue e meus pensamentos e revelar-se na luz omnisciente. Levantei-me , depois, e acendi uma ---- (continua)
A decoração e a comida e a casa de Barbara Berenson em Montauk eram como a página central da House and Garden. Barbara não havia convidado ninguém interessante, nenhuma beldade notável, apenas colaboradores de sua revista, mas havia muito caviar: caviar tirado de uma lata enorme. Todas as meninas da família dela eram loiras estonteantes, bronzeadas e californianas; mas (segundo Victor Blythe) seus irmãos eram só ''arrumadinhos''. Na noite de Natal, Barbara estava usando uma linda ametista Fabergé enquanto eu calculava o estrago que lhe entregar minha carta poderia causar. Mas ela me perguntou: ---- O que voce tem escrito ultimamente, K(?) -----, e eu não resisti: ----- Em detalhe tudo sobre sua vida sexual(: sexo com Barbara Berenson e tudo o mais, como ela era penetrada e gemia nas noites (.) ----, e estendi para ela a carta que tirei do bolso junto com um saquinho de 100 gramas do melhor skunk que eu conhecia em Nova York. Acrescentei: ---- Seu presente de Natal (.)----, e ela adorou o presente, e ficou intrigada com a carta:----- É para ler agora (?) ----, perguntou ela. ----- Por favor, não (.) ----- respondi. Naquele momento, Victor Blythe entrou na sala e acho que ele passou alguma coca para Barbara, dizendo: ---- É a última que tenho (.) -----, entao eu calculei logo que venderia toda minha mercadoria com facilidade por ali. Barbara foi até o banheiro e voltou como um zumbi. Foi estranho (havia muita gente na casa bebendo) pareceu-me que ela tinha dado uns tiros e lido um pedaço da carta; seu comportamento mais atencioso comigo parecia querer dizer que ela estava realmente me aceitando como o novo menino Jesus ou algo assim. ''Não existe avatar com mais de 40 anos (.) ----, eu disse: ----- Os Budas são como eu, não como ninguém mais (.) -----, as pessoas foram capotando uma a uma, de tanto Dom Perignon. No quarto se reuniram algumas pessoas mais tarde, e ela abriu seu presente de Natal. Havia roupas novas por toda parte e uma das garotas no quarto passava-me a impressão de ser apaixonada por Barbara: bem, ouve um momento em que restaram nós três no quarto; vi, pela maneira como Lucy olhava para ela, que gostava mais dela que eu, que tinha mais em comum com ela do que eu jamais teria; gostei imensamente dela: era uma garota correta, honesta com seus sentimentos até a medula dos ossos, bondosa, atenciosa, o tipo que daria o que se pode chamar de uma boa amante. Barbara disse que estava procurando um novo apartamento para morar e eu sugeri Park Avenue, mas ela disse que ''tinha uma imagem para proteger''. ----- Para ''zelar'', você quer dizer(?) -----, perguntei. ----- Não , para proteger mesmo (risos) para esconder (mais risos) ---- para ''editar'' (.) -----, disse ela, e inesperadamente começou a mostrar para mim e Lucy fotos dela nua com dezesseis anos, uma quantidade generosa de pele. Voltei a me lembrar da carta. ---- Quem tirou essas fotos , Barbara(?) seu primeiro namorado (?) ----, perguntei. ---- ''Namorada'' (.) ----, respondeu-me, acrescentando que no ano passado a mesma pessoa havia vindo à Nova York só para pedir sua mão em casamento. Para o meu espanto, Lucy saiu do quarto junto comigo, e Barbara dormiu sozinha. Assim que fechei a porta atrás de mim, no quarto de hóspedes, desejei que ela não lesse minha carta, e fiquei um tempo remoendo frases que eu tinha escrito.
''Barbara, uso tantas frases extravagantes nessa carta porque não sou capaz de dizer essas coisas pessoalmente sem parecer ridículo; e talvez tudo isso seja uma desculpa para algo que nem por escrito fui capaz de dizer ainda. ''O que meu coração concebe no escuro é batizado na luz (.)''. Quando lembro-me do seu rosto me invade um sentimento tão forte de exaltação que me sinto como se estivesse escrevendo uma carta para o próprio Criador. O calor da lembrança perdura noite adentro, fluindo de volta do outro lado do horizonte curvo. Não podia ter escolhido hor ----- (continua)
Sol. O caseiro ficou excitado durante todo o fim de semana porque Barbara tinha dito à ele que lhe compraria um jipe novo de presente de Natal. Lucy e Victor Blythe discutiam a capa da nova edição da revista: ele queria que eu colocasse alguma coisa escrita e não autoral nas margens e eu, educadamente, disse que preferia não mexer com isso e que estava satisfeito após vender metade do meu estoque para ele e seus ''amigos'' na praia mais cedo. Jean Lambert estava sentado na areia com um cachorro enorme analisando os saquinhos que eu tinha lhe passado. Eu o ignorei por algum tempo e depois vi que era Robert Di Mona, o marchand italiano, quem tinha deixado o cachorro com ele para ir experimentar a erva dentro do seu carro no estacionamento. Falavamos um pouco sobre generalidades artísticas e ele quis arrancar-me um saquinho extra de heroína, e então Victor o convidou para o almoço na casa de Barbara. Ele veio com seu namorado, Peter, que ficou beijando Victor escondido , na cozinha. Mas todos estavam se entendendo bem. ----- Compro arte desde os vinte anos de idade e empilho tudo em minha casa em Bruxelas como os Collyer Brothers (.) -----, Jean disse-me. Eu fiquei entrando e saindo do almoço porque Lucy e outras lésbicas estavam pintando uma tela enorme com uma vassoura de esponja nos fundos da casa. Antedi dois telefonemas de Grave e conversamos por código: ---- Acho que você vai perder aquelas garrafas(.) ----- De tarde uma garota sueca apareceu na casa unicamente para perguntar quem estava vendendo skunk e minha surpresa foi total quando me dei conta de que ninguém ali sabia quem era ela. Coloquei um baseado para fumarmos no ateliê dos fundos e no fim ganhei vários beijos suecos na boca e ela comprou todo o skunk que restava na minha mochila. Barbara veio me buscar para participar de uma pequena ceia que uma mulher chamada Diane von nao sei das quantas estava improvisando no andar de cima. Eu pude notar que alguns serviçais ali tinham medo de que as pessoas desmaiassem de chapadas; a maioria delas estava sentada em cadeiras de praia com a cabeça para trás e cantando para si mesmas. Colocavam e tiravam os óculos escuros, e a parte de cima de seus corpos pareciam gelatina de carne. Quando finalmente tive um momento exclusivo com Bárbara, ela pareceu estar fazendo o melhor para entender o que havia lido. O meu eu verdadeiro, aquele que prontamente perdeu as rédeas daquela conversa, era quase um estranho para mim: ----- Eu sei que para você eu sou apenas uma mulher rica e bonita e você conhece um pouco da vida que levo, K e tem fortes intuições e fica imaginando coisas sobre mim (.) ----- ela disse, levantando a taça vazia para que eu a enchesse de Dom Perignon. ----- Fico contente que você tenha lido minha carta (.) ----, minha cabeça estava dando voltas enquanto ela levava a taça aos lábios, imaginando que aquilo eram as preliminares de uma estranha descoberta. Ela veio e sentou-se no meu colo, dizendo: ----- Vamos conversar então (.) -----, e entornou um pouco de bebida dentro da minha boca. Fiquei mais assustado que surpreso, e completamente desconcertado quando ela disse: ----- Eu nunca fiquei com um homem na vida (.) -----algo em que realmente eu não conseguia acreditar. : ---- Nunca, acredita nisto (?) ----, e começou a rir na minha cara. ----- Isso que você está fazendo comigo é cruel, Barbara (.) ----- eu disse. Um momento de silêncio, olhos nos olhos. ----- Você imagina muitas coisas sobre mim , não é (?) mas se quisesse algo mais, teria que me conhecer melhor, certo (?) -----, perguntou-me. Admiti que ela tinha razão, mas argumentei que a visão que eu estava tendo dos peitos dela no sutiã, naquele momento, estando o sutiã visível sob sua blusa, até que era bem maravilhosa. ---- Espera um momento, K (.) -----, ela se levantou do meu colo e acendeu um cigarro. Olhou para mim: -----O problema com você é que você nunca se entregou à um trabalho digno de suas forças(: você precisa de problemas maiores, dificuldades maiores, você é alérgico à banalidades, pois só produz satisfatoriamente quando muito pressionado(: essa vida que você leva não é adequada para você(: você foi feito para levar uma vida perigosa (.) ----, ela disse. ----- Receio que seja justamente o contrário, Bárbara (.) -----, observei. ----- Mas você sabe que é... protegido, não sabe(?) quantas vezes você esteve próximo de morrer e as coisas tomaram um rumo tão insólito que você acabou se safando (?) pense bem... quantos crimes você já deve ter cometido, crimes cuja autoria ninguém nunca lhe atribuiria ( ok, talvez eu exagere: mas como disse na carta, você não está agora com um affair tão perigoso, um caso que, se você não tivesse nascido sob uma estrela invencível, já teria lhe arruinado (?) você me olha de uma maneira estranha, apaixonada, mas isso não é nenhuma paixão; quando você escreveu aquela carta, sabia exatamente que iria ter uma mínima chance, calculando cada detalhe imaginável de tudo; você não tem dinheiro, nem poder e nem influência, mas quem quer que seja sua mulher, eu tenho pena dela; você vê as mulheres como mais fortes que você, porque duvida de si mesmo constantemente, no seu cálculo absurdo de tudo, mas você é o mais forte, sempre será o mais forte em qualquer relação, porque você só é capaz de pensar em si mesmo, no seu destino anônimo, e ama a vida mais do que a si mesmo; se voce fosse um pouquinho mais embrutecido eu teria medo de você, poderia se tornar um fanático perigoso, mas eu sei que você está pronto para fazer qualquer coisa a fim de satisfazer seus instintos (... e talvez eu lhe corresponda, sabia(?) você continua me olhando de uma maneira estranha, se perguntando de onde foi que eu tirei todas essas conclusões, com quem foi que eu andei conversando(: veja só , a poucos instantes eu olhei para você lá embaixo e vi que você estava esperando ansiosamente que eu viesse e iniciasse algo. Sabia que isso aconteceria e sou capaz de jurar que você tinha o controle milimétrico do tempo, dentro de você há sempre uma carta na manga esperando a poeira baixar, e agora eu vim até você e você está paralisado (um pouco assustado, hein(?) -----, ela disse, e assenti com a cabeça, indefeso. Seu sermão continuava: ----- Você vive meio confuso porque está sempre olhando além do objeto do seu amor, procurando algo que jamais encontrará (.) ----, levantei-me da cadeira, fui até lá. Quando afastei os lábios dela olhei no fundo dos seus grandes olhos verdes, colocando os braços em volta da sua cintura. Para ela aquilo tudo era floreio verbal, seu prazer exuberante estava mais tanto em mostrar-se chocante quanto em realmente sentir a carga sexual do nosso idílio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário