sábado, 11 de julho de 2015

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Naquela época, eu era capaz de farejar indícios da mente iniciática tanto na arte quanto na perversão; apenas mais tarde perceberia que isso era o equivalente de incendiar um apartamento só para assar um bife. A iniciação autêntica exige um fogo controlado, no lugar certo, mas nada que sirva de motivação para nenhum tipo de caretice reacionária. A família de Melissa achava que ela era a filha do Demônio; através dela conheci aqueles apartamentos em que um monte de gente atirada pelos cantos ficava se drogando e listando uns para os outros os canais de heroína da cidade. Eu só viria a usar quatro vezes na vida: e por sinal, todas foram muito boas. ----- O problema desses apartamentos é que sempre tem alguém querendo trepar com você Emoticon smile e você só está ali por causa da droga, certo (?) -----, Melissa disse. ----- ''TV Eye'', é um termo de garotas para se referirem à homens olhando para elas com olhar de desejo, como na música de Iggy Pop (Twat Vibe Eye: olhar de comedor) Estou com um, olha (.) -----, comentei, vestindo minha nova jaqueta de piloto de caça e beijando o pescoço dela. ----- Mas você acabou de me comer(.) -----, respondeu ela. ----- Comeria de novo, se não estivesse na minha hora (.) -----, e saímos, eu tentando convencê-la a ir para casa estudar ao invés de ficar circulando naquela pizzaria na esquina da Rua 7 com a Segunda Avenida, onde um bando de criminosos barra pesada transformava pó em dinheiro. Até o ar parecia mais claro e transparente naquele fim de tarde, saindo de um sebo com o exemplar em inglês da Doutrina da Não-Mente (do Dr. Daisetz Suzuki, que eu dei de presente para Melissa) e indo tomar o ônibus em Riverside Drive, naquela hora prolongada da luz diurna. Conversamos um pouco sobre Miss Berman: disse à Melissa que a não ser quando ela tinha realmente algum belo pensamento particular para ocupar meus ouvidos, eu vinha suportando cada vez menos as palestras dela; como era cansativa em questões teóricas (manhãs inteiras desapareciam nubladas dentro da minha cabeça enquanto Miss Berman especulava sobre arte contemporânea: os óculos escuros enconbrindo os olhos azuis, o cultivo do verdadeiro bom gosto cedendo espaço para ideologias confusas sobre sexo e política. ----- Eu adoraria poder falar mais e fazer pequenos discursos recheados de citações Emoticon smile quero ver se desenvolvo isso (.) -----, disse-me ela um dia ( a nomeação para o Conselho de Artes era sua meta na vida). Mas confesso que algumas vezes suas bobagens me agradavam e divertiam: ----- Disse à ele que minha amiga se chamava Elsa Holzer, tinha mais ou menos quarenta mas aparentava trinta, e que ela estava em busca de uma ''foda casual'' Emoticon smile e sabe o que ele disse (Miss Berman me perguntou, rindo) , ele disse: ----- Diga à sua amiga que ela está na cidade errada, todo mundo em Nova York é gay (.) -----, contou-me ela, me fazendo lembrar que uma vez perguntaram à Tennesse Williams se ele era gay e ele respondeu : ''Olha, digamos que eu percorro o cais(.) ''. Elza Holzer era uma morena clara do Cincinnatti, baixinha, redondinha e cheia de corpo, que ensinava filosofia política no Hunter College e defendia a idéia de que uma sociedade de massas era incapaz de produzir criminosos interessantes, e vivia citando a ''banalidade do mal'', de Hanna Arendt, para justificar a supressão das ''grandes individualidades'' da superfície do mundo. Vivia com as pernas enfiadas em meias calças pretas para esconder uma pequena varise na batata da perna e eu achei isso atraente na noite em que andei pela chuva até o Biltmore Hotel para um jantar no Overseas Press Corps. Sentada no bar, à meia-luz, Elsa estendia um pé encurvado para frente como faria uma bailarina e descansava um punhozinho rechonchudo nos quadris. ------ Não foi o pai de Elsa que morreu e deixou para ela uma imensa corretora de valores (?) -----, me perguntou Melissa depois, e eu não soube responder. Elsa tinha um sorriso simpático, sóbrio e terno, de dentes limpos e brilhantes, e os olhos de um verde escuro em que não havia malícia; uma criatura desajeitada, de boa índole, alegre, cheia de boas intenções, mas enfadonha; morava numa casa na 72 st e quando eu a vi na luz fiquei desanimado. Naquela noite, Victor Blythe apareceu com Barbara Berenson simulando um par rico e festivo rasgando dinheiro sob as estrelas; ele me ofereceu cocaína e eu não aceitei; depois disse que tinha um pick-me-up no quarto e eu rejeitei; Elsa Holzer e Miss Berman conversavam com Barbara sobre o novo assunto dela em sua revista de arte: Androgenia, e também uma reportagem exaustiva sobre quem possuía quais telas famosas nos Estados Unidos. Eu percebia Miss Berman tentando considerar tudo o que havia sob o sol com uma teimosia toda germânica, mas equivocada. Fui ficando desapontado com o fato de que boa parte do comportamento delas era um desperdício de energia com coisas tolas, sem quaisquer propósitos filosóficos sérios. Victor Blythe olhou para mim e disse: ----- O Moxfane que tomei meia hora atrás está dificultando minha concentração Emoticon smile a onda está meio demais (.) -----, e encostou sua perna na minha, e me encarou. Definitivamente não era um TV Eye. Quando contei isso para Melissa , ela riu e observou: ----- Se você comer esse cara está feito na vida Emoticon smile ele vai fazer de você uma divindade hindu(: uma deusa(!) hahahahaha(.... -----, como sempre, ela ria, ria. ------ E se não for exatamente isto(?) -----, mais risos. Victor Blythe tinha maçãs do rosto compactas, e sua tez era de uma cor não muito sadia para um homem de quase quarenta anos, com profundas rugas em longos sulcos saindo dos cantos dos olhos, como os que aparecem em vidro quebrado. Sua cortesia antiquada e cheia de insinuação comigo naquela noite tornava indispensável que eu respondesse qualquer uma de suas perguntas com desenvoltura e alacridade: ------ Quantos anos você tem (?), onde você nasceu(?), quem são seus pais (?) , você gosta de garotas (?), onde você aprendeu a falar italiano (?), onde você estava no 11 de setembro(?), Berman disse que você escreve: sobre o quê(?) ------, a ''banalidade'' dele não era apenas cosmética socializante, era o próprio vazio existencial falando; eu me perguntava se havia forma melhor de humilhar discretamente um publicitário fraudulento do que fazer sua imaginação parecer coisa corriqueira e ordinária, enjoativa e sem valor. Sua visão política era horripilante, e quando sugeriu que John Kennedy era corrupto eu me limitei a dizer, por pirraça e sem oferecer nenhum argumento: ----- Não, ele não era (.) -----, mas pseudo-intelectuais de mídia não costumam entender todo o alcance do sarcasmo das minhas análises políticas: apenas se compenetram das minhas divagações por meio da minha obra literária, e bufam como porcos agonizantes. E quando ocorre de serem também gays, estão sempre esperando que eu seja realmente o herói malvado e pervertido que veio do outro mundo apenas para enrabá-los. Argumentos! Explicações! ----- Agora vamos subir para o meu quarto e nos divertir um pouco(.) -----, Victor Blyhte disse, estendendo o convite à todos nós. Pensei nos seus garotinhos de cabelo vermelho. Barbara ficou parada diante de mim no elevador. Eu sentia-me verdadeiramente atraído por ela: ela era uma dama americana rica e justa e em momento nenhum discriminou minha condição sócio-econômica modesta; mas a Prof(a). Elza Holzer também me atraía naquele momento, e Miss Berman seguia me fazendo pensar em sodomia e felação com sua anca balançante. Perto delas, Melissa era só uma pirralha muito doida. Na verdade, muito raramente acontece de eu encontrar uma mulher e pensar depois: ''Incrível, mas nada nesta mulher me atraiu(.)''. Como pensei nos peitos de Barbara naquele vestido azul aberto nas costas. E a Prof(a). Elsa Holzer me fazia pensar que mulheres de quarenta anos baixinhas, bundudas e engraçadas em busca de uma ''foda casual'' deveriam ser as supremas rainhas do mundo. Se eu pudesse (pensava) passaria o resto da vida passeando entre mulheres altas de vozes sedosas e peitos pequenos e mulheres baixinhas e alegres com peitos grandes; além das mulheres de tamanho médio afetuosamente sensuais com peitos de tamanho médio e mulheres baixinhas com peitos pequenos e sotaque do Cincinnati e mulheres de tamanho médio com peitos médios e anca balançante e sotaque alemão; bem, isso sim que seria viver. E naquele momento era. Gostava do fato de Miss Berman não poder saber que eu estava digitando mentalmente tudo isso, ou que eu adoraria que ela se sentasse de cócoras sobre mim e rasgasse sua calcinha de elástico branco e moesse sua xota salgada na minha cara. Lá em cima havia um único aposento com janelas de vitrô na frente e no fundo, cujos vidros eram cobertos com papel impermeável; no centro havia um aquecedor; no canto mais próximo uma cama de casal com cabeceira de ferro pintada de branco; o canto oposto era uma espécie de armário com cortinas; e havia um sofá desses que afundam e um enorme banheiro de mármore com uma banheira de luxo de bordas douradas. Barbara perguntou onde diabos Victor estava indo quando viu ele entrar no banheiro e ele disse: ----- Vou tomar um banho rápido (.) ------, e se fechou ali dentro . Barbara deitou na cama e eu, Elsa e Miss Berman nos emparelhamos no sofá. Perguntei se podia fumar e ninguém fez objeção. Barbara me pediu um cigarro e logo todos estávamos fumando com o fim de descansar da excessiva racionalidade do jantar: o calculismo social, a mecanização das perguntas e respostas, o planejamento e a técnica do marketing existencial, a repressão do inconsciente; fumando em meio à nuvem de fumaça acumulada no teto, todos tínhamos a brecha necessária para sermos realmente românticos por um segundo e abrirmos a garrafa de carta blanca de Victor na cômoda ao lado da cama. ----- Aposto que ele tem grenadine aqui em algum lugar (.) -----, Barbara disse, abrindo o frigobar onde só encontrou os copos e gelo. Interfonou para o serviço do hotel e mandou subir limão, açúcar, gelo e grenadine. ----- Daiquiri (.) -----, ela disse, olhando nos meus olhos e me remetendo à imagens de grandes navegações, piratas hollywoodianos, Cuba e ótimos charutos e à biografia de Ernest Hemingway que ganhei de um tio meu e nunca li: ----- Prefiro mil vezes Faulkner (.) -----, disse para ele na ocasião -----, mas ainda assim sentia que todos precisávamos de algo mais forte, que todos tínhamos ainda algo de máquinas: máquina reminescente, máquina de conversar fiado, máquina de desejar, máquina romântica, máquina de foder, máquina da cultura; não éramos pessoas e sim sistemas de comportamentos cruzando dados automaticamente, e todo sistema para funcionar exige mediocridade e nenhuma grandeza. Trabalho em conexão com a arte sempre gera um excesso de banalidade (um Quinto de Império de banalidades: eu pensei , voltando meus olhos para Elsa ao meu lado no sofá: acho que foi nesse momento que a vi sob a luz, associei-a à Hannah Arendt e perdi definitivamente a vontade de comê-la; Barbara também tampouco queria comê-la; Victor era gay e Miss Berman era cem por cento hétero. Pobre Elsa!), agora ela estava no apartamento errado do hotel errado da cidade errada. ----- O que você tem escrito ultimamente, K(?) -----, Bárbara me perguntou. ----- Nada Emoticon smile mas no Domingo passado fui dar uma olhada na antiga casa de Norman Mailler no Brooklin Heights Emoticon smile li que após casar-se várias vezes ele morou só no andar de cima e alugou o debaixo e transformou a parede da frente em janela de vidro corrediço com vista para Manhattan e ficou hipnótico, uma vista espetacular, contraponto perfeito para o transe da criação literária Emoticon smile ali ele recebeu muita gente famosa, adorava ser paparicado Emoticon smile já eu não, detesto(: moro no alto de um prédio apocalíptico na West 9 th (perto da antiga casa de Mark Twain) e tenho uma não-vista mental do Hudson coberto por gás tóxico, e a única visita que recebi até hoje foi de Melissa em busca de um baseado e(... ------, assim que ouviu falar em Melissa, Bárbara me interrompeu e perguntou se éramos namorados. Respondi: ----- Não, mas ontem ela me levou para fazer compras na seção de camisas do Bloomingdale´s e eu acabei ganhando dela essa jaqueta de piloto de caça Emoticon smile adorei, acho que eu não teria desembolsado o dinheiro se tivesse que pagar por ela(: agora já não é só você que tem roupas bonitas no mundo, capisce(?) -----, ela riu; e eu decidi ser indiscreto: ------ E você, Barbara, não tem namorado (?) -----, ela corou minimamente e disse: ----- Que nada (e riu) desculpe, acabo de me lembrar de uma coisa engraçada (explicou) na verdade, não tem graça nenhuma Emoticon smile é apenas aquela expressão antiga: ''Chocolate Hershey, uma avenida de aventuras(.) '', sabe, andar com gays ''às vezes'' pode ser bem divertido (.) -----, tendo dito isto, Barbara se dobrou para a frente, as mãos sobre o rosto, gargalhando: ----- Sério, peço desculpas (.) -----, ela erguia seu copo de daiquiri cerca de três centímetros à frente dos olhos, limpando a garganta, ainda rindo um pouco. Continuou: ----- Desculpem(: se vocês tivessem visto o filme que Victor e eu assistimos ontem à tarde (... era ''enfiado no cu dela'' pra cá, ''na bunda dele'' pra lá, ''me mostre esse cuzinho apertado'', e assim por diante Emoticon smile meu Deus, desculpem (.) -----, agora ela ria educadamente, enquanto Elsa e Miss Berman, mais velhas do que ela, diziam com os olhos: ''Crianças(...)''. ----- E isso era uma história inteira(?) -----, perguntei à Barbara. ----- Sim, até mesmo bem elaborada Emoticon smile acredita nisto (?) -----, indagou-me. ----- Sério (?) ----, eu a observava pensar nas partes do filme de que ela se lembrava, tão inclinado para frente no sofá que parecia que a qualquer momento eu mergulharia no chão de taco e nadaria até seus pés sentada na cama. ----- Enfim, mas nada além de um história comum de sacanagem (.) ----, respondeu Barbara. ----- E você gosta (?) -----, insisti. ---- Sim (.) ----, ela respondeu, detonando meu coração como uma bomba atômica. Era o terceiro daiquiri de cada um de nós. Por um ou dois minutos, eu e Barbara fingimos que o outro não existia, até que ela começou a rir sozinha de novo. Mas eu achei que qualquer nova palavra que eu introduzisse sobre o assunto, agora, seria bruscamente cortada ou contornada na mesma hora. Calei-me. Barbara continuava (pensava comigo) fingindo não ser tão rica entre nós e procurando uma forma de existência benéfica para ela mesma e o mundo que não desafiasse as contradições internas do capitalismo: eu a achava realmente boa (e por mais idiotizado pelo amor que estivesse, o fato é que eu sempre a via andando pelo lado certo da solidão: esforçando-se em favor da criatividade, dos artistas iniciantes de talento, da música negra, dos ballets de Stravinski, da aquisição de quadros caríssimos, das reproduções de certas obras do Museu de Arte Moderna em sua revista, da loucura, de um novo artigo sobre ''androgenia'', do rum com grenadine e de um almoço no Les Plêiades (de táxi até a 76 com Madison Avenue), para o qual infelizmente eu não fui convidado. Quando Elsa Holzer perguntou à Barbara em que ramo de negócios seu pai atuava, ela respondeu vagamente: ---- Minha família está envolvida com fabricação de aviões (.) ----, enquanto eu me lembrava do meu passeio na tarde anterior por Greenwich Village em busca de idéias para o meu romance de seiscentas páginas; essa área da cidade era próxima à minha rua e abrigava alguns dos bares mais antigos de Nova York: o meu predileto era o predileto de Dylan Thomas, o White Horse Tavern, sempre cheio de um excedente de sub-literatos incultos procurando vaga nas revistas literárias da moda; mas o Peculier Club tinha mais de 400 variedades de cerveja e então eu sempre acabava indo parar lá depois. Olhava para algumas lojas com vitrines no caminho como se a qualquer momento fosse encontrar alguma idéia brilhante à venda (temendo não ter dinheiro suficiente para comprá-la: apenas um caderno, uma caneta e uma massa insuprimível de ruídos exteriores envolvendo meu quarto quando voltava. Os ruídos de Nova York! Segundo Mallarmé: '' presque tout le monde repúgne aux odeurs mauvaises; moins au cri (.) ''. Aqueles ruídos na West 9 th , quem os podaria e os expulsaria do território eleito da poluição sonora do mundo(?), e eram antes os ruídos dos gatilhos do que os dos carros, dos batedores de carteira correndo com suas navalhas debaixo da blusa do que os dos telefones e interfones, dos espancamentos raciais e cobranças de dívidas sujas com juros estratosféricos, dos casais desempregados se matando na frente de crianças apavoradas, da paranóia da máquina total do mundo conspirando para o aumento do absurdo. Isolada em sua cápsula de tinta, minha caneta ainda não podia deixar de ouvir aqueles barulhos exorbitantes: ela precisaria ser antes uma andorinha circulando no céu branco da página, conduzindo a palavra e o sangue para finalmente escrever '' Les grands actes qui sont aux Cieux''. Pelo menos (eu pensava) não tinha televisão no meu quarto, esse brinquedo para analfabetos, surdos, mudos, doentes, anti-Nietzsches, reverendos, padres , podres, ''croulants''. Eu ria por dentro, me perguntando de que tipo de lógica Miss Berman se valia para me convidar apenas para alguns daqueles ''encontros''; invariavelmente, lá estavam Barbara Berenson e Victor Blythe, deparando-se com a feminilidade sensual sem remissão dela: eu podia até mesmo cheirá-la no ar. A forma dos cabelos sempre na última moda e a cor particular dada ao rosto pelos tipos mais acertados de make, e ainda os decotes aumentando o efeito produzido pelo seu belo busto, contendo por osmose todas as extravagâncias diluídas (em rápida sucessão) em matéria de Wahrol, Living Theater, a cópula em plena cena, a filosofia de vida dos Stones, marchands italianos e máfia, minimal painting e Eletric Lady Land: um rastro de privilégios libidinosos democratizando-se de cima para baixo, de maneira polimorfa, imaginando-se nobre e primitivo ao mesmo tempo, combinando o lazer industrializado alienante com as luxuriosas invencionices de Versalhes, e a mesma facilidade erótica com que se copula em Samoa sob as flores de hibisco. Àquela altura, eu e Miss Berman discutíamos animadamente sobre o romantismo sombrio e esvaziado que tinha ficado daquilo tudo no mundo atual, e eu cheguei a sugerir que a origem do orientalismo na cultura ocidental não tinha nada a ver com os hippies americanos, e sim com os templários, com o fervor apaixonado dos templários pelos muçulmanos: vindo aqueles, numa linha de sucessão histórica perfeitamente rastreável na alta literatura européia e no sufismo, a serem substituídos por personagens como Lady Stanhope, R.L.Stevenson, Charles Baudelaire e Gauguin. ----- E agora, nos dias de hoje, todo o racismo, os vícios, as compulsões sexuais, o reacionarismo, com muito turismo no meio e bastante cor local(: e a impressão nítida de que apenas a ciência, a tecnologia e as práticas administrativas do Estado Democrático de Direito representam agora a identidade do Ocidente(: liberdade, fraternidade, igualdade, racismo, corrupção, fanatismo, mentiras, sexo anal, cocaína, moda, guitarras distorcidas, echn, reverb e assassinatos à queima-roupa(: KABOOOOOMMMM(!) -----, eu dizia, enquanto Miss Berman ria rente ao meu rosto, bêbada. Nós já estávamos quase nos agarrando, mas ela se recompôs pois se deu conta de que não deveria fazer aquilo em público, e sim no seu apartamento na 77 quase com a Fifth Avenue. Algo que aconteceu de maneira mais ou menos fulminante: Barbara se levantou da cama sobressaltada dizendo que havia mais de uma hora que Victor estava no banheiro e bateu na porta. Não houve resposta. A coisa apavorante foi que ela forçou a maçaneta e a porta estava aberta; então ela entrou no banheiro e encontrou Victor deitado na banheira de mármore completamente chapado, o canto da boca dele resvalando para fora d´água. Ela o agarrou rapidamente por baixo dos braços e gritou por ajuda: eu entrei no banheiro e nós o erguemos com alguma dificuldade. Foi uma visão realmente desagradável: Victor meio que acordava e fazia ''Ugghh''. E Bárbara se justificava, sem graça: ----- Desculpe, mas você estava se afogando, cherry(.) -----, levamos Victor de táxi até Westbury para encontrar o namoradinho dele que tinha ficado em casa para responder os e-mails de suas clientes pedindo para alterar horários no salão de beleza. Bárbara subiu com ele para ajudá-lo a se manter de pé e quando entraram no apartamento encontraram o cabeleireiro nu esperando para comê-lo. Assim Barbara deixou Victor lá e voltou para o táxi , dizendo: ---- Victor está muito além do off-Broadway e do seu tempo (risos) -----, quando eu e Miss Berman descemos do táxi na 77 e entramos no seu edifício, ela me empurrou contra o espelho do elevador e disse: ----- Eu amo o amor entre os jovens (.) -----, e no pegamos pela primeira vez. No apartamento, Berman se livrou da blusa e do sutiã e, num sussurro desesperado, ''ordenou'' que eu chupasse seus peitos. Obedeci: olhava nos olhos dela e depois para baixo, os olhos fixos no prazer invisível da minha mente: ----- Morde meus mamilos, K(: mas cuidado, devagar(.) -----, eu segui ''obedecendo'', esperando o momento certo para virá-la de costas e dar uma boa olhada. Mas a primeira cravada foi pela frente mesmo: longa, trêmula e cambaleante, como uma frase labiríntica de Faulkner; não lembro exatamente o que estava tocando, mas aquela espécie de jazz latino me supria como uma fonte universal e infalível de raios cósmicos. Eu tinha abaixado a cabeça entre as suas alvas coxas grossas e retirado seus sapatos de salto alto para beijar seus pés; nos seus grandes lábios um estouro simétrico de escarlate sugerindo uma carnação viva de sonho. Berman era carente, apesar de (segundo Melissa) estar de caso com aquele rapaz inglês que era podre de rico e novo na cidade e que, para todos os efeitos, ''não tinha dinheiro nenhum''; talvez ela não gostasse desta discrição, nele: Berman precisava satisfazer numerosos instintos de uma vez, precisava do calor, da presença e da visibilidade dos homens, e também da própria emancipação, de exercícios espirituais de resistência à dor, de continuidade tântrica e, sobretudo, de interesses distribuídos como cartas num jogo: precisava do Conselho de Artes do Estado de Nova York, precisava de lisonja, triunfo, poder! 

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