terça-feira, 4 de agosto de 2015

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Eu e Barbara ficamos em pé sob uma tenda iluminada por lâmpadas sem globos e observamos os cavalos sendo exibidos num picadeiro sujo, cada um trazendo uma pequena manta de veludo no dorso com um número escrito, e as pessoas com os programas impressos na mão podiam ler a respeito da linhagem e demais especificações. Eram cavalos jovens, ainda não haviam corrido, estavam ali para serem vendidos. Barbara me explicava as coisas em voz baixa, como se estivéssemos em uma igreja. Observei que os pêlos dos cavalos brilhavam, que as crinas haviam sido penteadas e que alguns erguiam a cabeça para se livrar da correia ou do freio, realmente belos em movimento. Barbara os observava com uma atenção absorta (não dizia nada), apenas apontava quando um cavalo em particular a atraía. Reparei que as pessoas que examinavam os cavalos estavam muito elegantes em suas roupas esportivas adequadas, os homens de gravata de seda, mais de um deles com charutos na boca, iguais ao do ex-presidente Roosevelt, e todo mundo era bem metido por ali, o que me fez aprumar o ombro involuntariamente; aquele era o inabalável reino dos privilegiados. Eu sentia que, apesar de estar bem vestido, eu não o estava suficientemente, e a julgar pelos discretos olhares na minha direção, minha jaqueta de piloto de caça ultrapassava os limites do aceitável por ali. Passou pela minha cabeça o pensamento de que eu sabia o que estava fazendo ao encarar o mundo sem pensar muito seriamente nele . Após uma ou duas voltas pelo picadeiro os cavalos foram levados para fora, por uma passagem coberta, em direção ao que parecia ser um anfi-teatro com uma imensa platéia enfileirada e um locutor. Barbara sussurrou algo nos meus ouvidos e nós saímos dali, contornando a entrada ensolarada da frente, onde os motoristas estavam parados ao lado dos seus carros. Lá estava Kristen Guner. Sem a mínima reserva (enquanto eu esvaziava a mochila no seu porta-malas) ela descrevia os acontecimentos sociais de Saratoga; ao entrar no carro para me entregar o dinheiro, Kristen tirou o longo mantô , o lenço de cabeça, sacudindo e soltando os cabelos mechados cheirando a perfume árabe, tão penetrante e durável que o ar a nossa volta estava impregnado. ----- Persistente como uma mancha causada por folhas de nogueira (.) ----, eu disse. Barbara me olhou de lado, erguendo uma sobrancelha. Depois, Kristen sentou-se de lado no carro, exibindo as meias brancas rendadas (bas de poule) e os olhos sublinhados com um azul sexualmente sugestivo e uma brancura vívida no pescoço que transmitia uma poderosa mensagem aos machos de todo tipo: a mensagem do seu sexo. Nos Estados Unidos certas formas de êxito sensual exigem de permeio algum elemento de paródia, como é comum se ver nas séries de tv: um pouco de autozombaria, uma sátira da coisa em si; mas em Kristen Guner, eu tinha estranhas e repentinas visões da revanche do espírito sensual sobre a coisa em si: ela sentava-se de pernas cruzadas no banco do carro, mostrando as coxas de lado, enquanto eu acendia seu cigarro. Acho que nunca conheci uma mulher com um sex appeal tão evidente. Os lírios auratum tendo orgasmos no jardim suspenso no pórtico do hipódromo: ----- Percebi logo de cara que você era um palhaço, K (Kristen disse) mas sem aquele exibicionismo tedioso de comediantes profissionais (.) -----, e era um sentimento muito vaginal vê-la sentada de pernas cruzadas com a porta do carro aberta: um músculo liso e vociferante, eu estava adorando suas maneiras ( a fumaça saía-lhe pelas narinas enquanto ela falava e olhava para mim com um sorriso brejeiro forçado, mas logo ela se tornava expansiva e ria, e sua boca me parecia grande demais, assim como sua língua, e então por dentro da mulher elegante e fatal, aparecia novamente para mim a outra, da noite passada, bem mais vulgar. Os lábios dela eram vermelhos, mas a língua parecia-me branca, uma pétala de lírio que participava de forma assombrosa da sua vida livre e lasciva. Lírios dobrando para trás suas grandes pétalas brancas, carnudas, salpicadas de vermelho e dourado, enquanto seus pistilos emitiam sêmen e os estames o cobriam de pólen cor de tijolo. Dentro daquela pétala havia franjas brancas endurecidas, semelhantes à entrada de uma vagina; e eu imaginava-a com um aroma adocicado. Eu não era de modo algum insensível aos atrativos de Kristen, mas ela realmente não me deu bola em momento algum. Bastaram um passeio e alguns tragos num baseado para todos nós desistirmos de esperar pela corrida de cavalos e irmos beber no centro da cidade.  Era um local elegante, com um toldo até a calçada e portas de vidro bisotado e paredes alcochoadas em couro, um local meio equestre, verde-escuro, cor de bosta de cavalo, com pequenos abajures nas mesas lá dentro e retratos de cavalos de corrida famosos nas paredes. Bebemos tempo suficiente para que a noite caísse e os abajures fossem acesos. Coquetéis de camarão, depois filés bem passados e purê de castanhas e saladas picada com anchovas. A erva não havia deixado nenhum de nós tão acesos quanto gostaríamos de estar naquele momento. Grave me telefonou cerca de quatro ou cinco vezes, pedindo parciais e perguntando quando eu voltaria com a grana. ''Me and my shadoow, strolling down the avenue(.) '', cantava comigo mesmo, maliciosamente. E me veio à mente que uma espécie de recado estava sendo enviado sobre a conspiração de que eu agora participava. Eu já tinha juntado dinheiro suficiente para um ano inteiro de gastos em grande estilo em Nova York, mas preferi voltar para Juiz de Fora e comprar um apartamento imenso. No repouso anestesiado daquele bistrot, eu tinha a opção de deixar meu pensamento viajar em inúmeras direções enquanto as duas conversam; eu via o álcool agir sobre a aparência delas, dotando-as de  um aspecto de beleza não saturada característica dos afrescos, como confetes MM chupados por um minuto e cuspidos de volta na palma da mão para serem examinados. Como me pareceram, então, com aquelas personagens criadas por H.G.Wells em The Time Machine: os Eloi. Lindo e jovem gado humano; é bem verdade que o velho Wells teve algumas visões proféticas, e eu não estava de todo errado ao optar pelo formato de autobiografia para minha obra literária, porém sabia que não teria tempo para uma narrativa descansada a respeito disso. Eu tive tanta vontade de voltar para o Brasil, naquela noite, e começar o meu livro de onde eu tinha parado. Eu pensava em ter mulher e filhos, mas o lugar de honra do gênio está fora da sociedade: ele começa às vezes escolhendo personagens demasiadamente distantes de si, que lhe cruzaram o caminho, os quais fatalmente ele verá de fora, tentando reconstituir-lhes a vida. Olhando para Kristen e Barbara, eu percebia a necessidade extrema da figura ventríloqua e autobiográfica que teria que falar com minha própria voz. Inventar uma voz para quê(?), me perguntava, imaginando o dia do adeus: afinal, uma infinidade de idéias complicadas e intelectualmente valiosas sobre as quais eu poderia refletir depois, ou mesmo durante aquela noite de ''otium liberale'', auxiliado, no sentido de atingir um estado mental propício para considerações filosóficas, pela natureza intrinsecamente boa da noite fria... senti que se eu continuasse dando à parte posterior do meu cérebro a menor oportunidade de desenhar uma imagem sexual graciosa envolvendo Barbara e Kristen, meu raio de meditação inevitavelmente se estreitaria, os pensamentos sexuais se multiplicariam freneticamente, começariam a polimerizar, formando cadeias narrativas curtas e escorregadias que se conectariam a outras imagens anteriormente inocentes, e as revestiriam de volúpia, desfigurando-as como  lipo-proteínas e transformando-as em sub-realidades masturbatórias independentes. Preciso dizer que o rascunho do meu livro já apontava naquela direção: ----- Setenta capítulos violentamente novos sem nada ligando-os entre si (!) -----, prometia para mim mesmo, sem conseguir entender direito qual era o segredo dos autobiógrafos ''ortodoxos'' , por assim dizer, como Maurice Baring. Como conseguem se mover tão suavemente de a para b para c (?) O barulhento ''claque'' dentro da máquina literária de lavar roupas anunciando uma espécie de desativação final da rotação; o giro diminui e pára: olho para o que estou escrevendo no caderno (Estados Unidos: e me parece que estou jogando pernis desossados ou bifes crus dentro de uma secadora. O autor disto aqui, no entanto, forneceu uma ilustração grosseira da própria vida, que mostrou perfeitamente o interior rotativo da máquina que lhe narra e o empuxo dele resultante). 

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