terça-feira, 4 de agosto de 2015

6

Eu e Barbara ficamos em pé sob uma tenda iluminada por lâmpadas sem globos e observamos os cavalos sendo exibidos num picadeiro sujo, cada um trazendo uma pequena manta de veludo no dorso com um número escrito, e as pessoas com os programas impressos na mão podiam ler a respeito da linhagem e demais especificações. Eram cavalos jovens, ainda não haviam corrido, estavam ali para serem vendidos. Barbara me explicava as coisas em voz baixa, como se estivéssemos em uma igreja. Observei que os pêlos dos cavalos brilhavam, que as crinas haviam sido penteadas e que alguns erguiam a cabeça para se livrar da correia ou do freio, realmente belos em movimento. Barbara os observava com uma atenção absorta (não dizia nada), apenas apontava quando um cavalo em particular a atraía. Reparei que as pessoas que examinavam os cavalos estavam muito elegantes em suas roupas esportivas adequadas, os homens de gravata de seda, mais de um deles com charutos na boca, iguais ao do ex-presidente Roosevelt, e todo mundo era bem metido por ali, o que me fez aprumar o ombro involuntariamente; aquele era o inabalável reino dos privilegiados. Eu sentia que, apesar de estar bem vestido, eu não o estava suficientemente, e a julgar pelos discretos olhares na minha direção, minha jaqueta de piloto de caça ultrapassava os limites do aceitável por ali. Passou pela minha cabeça o pensamento de que eu sabia o que estava fazendo ao encarar o mundo sem pensar muito seriamente nele . Após uma ou duas voltas pelo picadeiro os cavalos foram levados para fora, por uma passagem coberta, em direção ao que parecia ser um anfi-teatro com uma imensa platéia enfileirada e um locutor. Barbara sussurrou algo nos meus ouvidos e nós saímos dali, contornando a entrada ensolarada da frente, onde os motoristas estavam parados ao lado dos seus carros. Lá estava Kristen Guner. Sem a mínima reserva (enquanto eu esvaziava a mochila no seu porta-malas) ela descrevia os acontecimentos sociais de Saratoga; ao entrar no carro para me entregar o dinheiro, Kristen tirou o longo mantô , o lenço de cabeça, sacudindo e soltando os cabelos mechados cheirando a perfume árabe, tão penetrante e durável que o ar a nossa volta estava impregnado. ----- Persistente como uma mancha causada por folhas de nogueira (.) ----, eu disse. Barbara me olhou de lado, erguendo uma sobrancelha. Depois, Kristen sentou-se de lado no carro, exibindo as meias brancas rendadas (bas de poule) e os olhos sublinhados com um azul sexualmente sugestivo e uma brancura vívida no pescoço que transmitia uma poderosa mensagem aos machos de todo tipo: a mensagem do seu sexo. Nos Estados Unidos certas formas de êxito sensual exigem de permeio algum elemento de paródia, como é comum se ver nas séries de tv: um pouco de autozombaria, uma sátira da coisa em si; mas em Kristen Guner, eu tinha estranhas e repentinas visões da revanche do espírito sensual sobre a coisa em si: ela sentava-se de pernas cruzadas no banco do carro, mostrando as coxas de lado, enquanto eu acendia seu cigarro. Acho que nunca conheci uma mulher com um sex appeal tão evidente. Os lírios auratum tendo orgasmos no jardim suspenso no pórtico do hipódromo: ----- Percebi logo de cara que você era um palhaço, K (Kristen disse) mas sem aquele exibicionismo tedioso de comediantes profissionais (.) -----, e era um sentimento muito vaginal vê-la sentada de pernas cruzadas com a porta do carro aberta: um músculo liso e vociferante, eu estava adorando suas maneiras ( a fumaça saía-lhe pelas narinas enquanto ela falava e olhava para mim com um sorriso brejeiro forçado, mas logo ela se tornava expansiva e ria, e sua boca me parecia grande demais, assim como sua língua, e então por dentro da mulher elegante e fatal, aparecia novamente para mim a outra, da noite passada, bem mais vulgar. Os lábios dela eram vermelhos, mas a língua parecia-me branca, uma pétala de lírio que participava de forma assombrosa da sua vida livre e lasciva. Lírios dobrando para trás suas grandes pétalas brancas, carnudas, salpicadas de vermelho e dourado, enquanto seus pistilos emitiam sêmen e os estames o cobriam de pólen cor de tijolo. Dentro daquela pétala havia franjas brancas endurecidas, semelhantes à entrada de uma vagina; e eu imaginava-a com um aroma adocicado. Eu não era de modo algum insensível aos atrativos de Kristen, mas ela realmente não me deu bola em momento algum. Bastaram um passeio e alguns tragos num baseado para todos nós desistirmos de esperar pela corrida de cavalos e irmos beber no centro da cidade.  Era um local elegante, com um toldo até a calçada e portas de vidro bisotado e paredes alcochoadas em couro, um local meio equestre, verde-escuro, cor de bosta de cavalo, com pequenos abajures nas mesas lá dentro e retratos de cavalos de corrida famosos nas paredes. Bebemos tempo suficiente para que a noite caísse e os abajures fossem acesos. Coquetéis de camarão, depois filés bem passados e purê de castanhas e saladas picada com anchovas. A erva não havia deixado nenhum de nós tão acesos quanto gostaríamos de estar naquele momento. Grave me telefonou cerca de quatro ou cinco vezes, pedindo parciais e perguntando quando eu voltaria com a grana. ''Me and my shadoow, strolling down the avenue(.) '', cantava comigo mesmo, maliciosamente. E me veio à mente que uma espécie de recado estava sendo enviado sobre a conspiração de que eu agora participava. Eu já tinha juntado dinheiro suficiente para um ano inteiro de gastos em grande estilo em Nova York, mas preferi voltar para Juiz de Fora e comprar um apartamento imenso. No repouso anestesiado daquele bistrot, eu tinha a opção de deixar meu pensamento viajar em inúmeras direções enquanto as duas conversam; eu via o álcool agir sobre a aparência delas, dotando-as de  um aspecto de beleza não saturada característica dos afrescos, como confetes MM chupados por um minuto e cuspidos de volta na palma da mão para serem examinados. Como me pareceram, então, com aquelas personagens criadas por H.G.Wells em The Time Machine: os Eloi. Lindo e jovem gado humano; é bem verdade que o velho Wells teve algumas visões proféticas, e eu não estava de todo errado ao optar pelo formato de autobiografia para minha obra literária, porém sabia que não teria tempo para uma narrativa descansada a respeito disso. Eu tive tanta vontade de voltar para o Brasil, naquela noite, e começar o meu livro de onde eu tinha parado. Eu pensava em ter mulher e filhos, mas o lugar de honra do gênio está fora da sociedade: ele começa às vezes escolhendo personagens demasiadamente distantes de si, que lhe cruzaram o caminho, os quais fatalmente ele verá de fora, tentando reconstituir-lhes a vida. Olhando para Kristen e Barbara, eu percebia a necessidade extrema da figura ventríloqua e autobiográfica que teria que falar com minha própria voz. Inventar uma voz para quê(?), me perguntava, imaginando o dia do adeus: afinal, uma infinidade de idéias complicadas e intelectualmente valiosas sobre as quais eu poderia refletir depois, ou mesmo durante aquela noite de ''otium liberale'', auxiliado, no sentido de atingir um estado mental propício para considerações filosóficas, pela natureza intrinsecamente boa da noite fria... senti que se eu continuasse dando à parte posterior do meu cérebro a menor oportunidade de desenhar uma imagem sexual graciosa envolvendo Barbara e Kristen, meu raio de meditação inevitavelmente se estreitaria, os pensamentos sexuais se multiplicariam freneticamente, começariam a polimerizar, formando cadeias narrativas curtas e escorregadias que se conectariam a outras imagens anteriormente inocentes, e as revestiriam de volúpia, desfigurando-as como  lipo-proteínas e transformando-as em sub-realidades masturbatórias independentes. Preciso dizer que o rascunho do meu livro já apontava naquela direção: ----- Setenta capítulos violentamente novos sem nada ligando-os entre si (!) -----, prometia para mim mesmo, sem conseguir entender direito qual era o segredo dos autobiógrafos ''ortodoxos'' , por assim dizer, como Maurice Baring. Como conseguem se mover tão suavemente de a para b para c (?) O barulhento ''claque'' dentro da máquina literária de lavar roupas anunciando uma espécie de desativação final da rotação; o giro diminui e pára: olho para o que estou escrevendo no caderno (Estados Unidos: e me parece que estou jogando pernis desossados ou bifes crus dentro de uma secadora. O autor disto aqui, no entanto, forneceu uma ilustração grosseira da própria vida, que mostrou perfeitamente o interior rotativo da máquina que lhe narra e o empuxo dele resultante). 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

5

Segundo Betty, Coffin Ed já tinha matado um sujeito só porque ele tinha soltado um peido na sua frente; e Grave estourou com tiros os dois olhos de um homem que tinha apontado uma automática carregada para ele sem querer. Essas histórias corriam pelo Harlem, segundo Betty, e todo mundo ali comentava que os dois eram de atirar num homem morto, se o caixão por acaso se mexesse. Nos filmes, assassinos profissionais sempre usam pistolas .22 com silenciador. No entanto, quando Ed disse que a partir de agora eu teria que usar uma arma, em função da quantidade de droga deles que eu carregava por aí, usar uma .22 me pareceu algo idiota. Eu disse ao nerd na feira de armas Nassau Coliseum Gun Show, que eu queria duas pistolas .45 automáticas. Dois dias depois, eu estava descendo os montes Adirondack com Bárbara durante toda uma tarde, até que a terra ficou com um ar mais cuidado, e no comecinho da noite entramos em Saratoga Springs e passamos por uma rua que teve a insolência de chamar-se Broadway. Pensando bem, o lugar parecia uma Nova York antiga, com lojas muito distintas com nomes novaiorquinos, e toldos listrados protegiam as vitrines do sol. As pessoas que passeavam pela rua não tinham nada a ver com Onandaga, não havia um fazendeiro sequer entre eles; havia um monte de carrões chiques no trânsito, alguns com motoristas uniformizados, e uma gente que claramente pertencia às classes abastadas sentava-se nas varandas dos hotéis e abriam notebooks e tablets. Eu e Bárbara nos registramos no Grand Union, o mais caro de todos, com a varanda suspensa mais comprida e larga. Um rapaz levou nossas malas e outro pegou o carro dela para estacionar. Num jornal local na recepção me inteirei dos páreos do dia seguinte para orientar os apostadores. Não havia notícia nenhuma no jornal, a não ser sobre cavalos: no mês de janeiro em Saratoga ninguém estava interessado em mais nada, só nos cavalos, e assim até a imprensa da cidade se adaptava: notícias sobre cavalos, horóscopos sobre cavalos e até mesmo a previsão do tempo durante as corridas, como se o mundo fosse unicamente habitado por cavalos. No quarto, eu voltei a perguntar à Bárbara se era uma boa idéia abordar alguém para oferecer minha mercadoria e ela disse pelo amor de Deus não, K, ela mesma me apresentaria à possíveis compradores: ----- Eu queria te ver pensando um pouco menos nisso, meu bem(: eu sou muito rica, lembra (?) ----, ela disse. ----- Mas eu não (.) ------, a noite estava fria e me estendi de costas no chão da varanda, olhando as estrelas no alto. Felizmente eu sei como permanecer com uma mulher sem ter certos pensamentos detectados. Até hoje nunca assustei nenhuma, graças a este talento. Além do mais, a suíte que Bárbara reservou era perfeita, toda aberta, como se fosse um grande apartamento sem paredes ou um salão mobiliado, com uma varanda no alto sustentada por colunas à qual se chegava através de uma escada espiralada. Fumei um cigarro por ali e depois fiquei sentado na nossa cama escutando com atenção os movimentos dela antes do banho. Quando ouvi seus passos no piso do banheiro, parei o tempo. ----- A idéia de tentar fixar qualquer coisa com as cores da mente me impele, me fascina, me espaventa(!) -----, eu disse, pensando alto enquanto folheava meu caderno velho. Passei por ela enrolada numa toalha e sentei numa cadeira. A certa altura mergulhei tão profundamente na figura de Bárbara que de súbito ela desapareceu da minha vista: ----- Frágil-formidável no sexo, paisagem da coxa ao seio, do ventre ao lábio debruado (.) ----- , eu disse, e logo ela apareceu de novo no meu campo de visão: agora encontrei-a curvada, nua, vasculhando o fundo de uma mala na cama. Examinei seu perfil por meio minuto: tinha o rosto vivo, feliz, e um nariz que tinha aparência mais inteligente que seus olhos, se é que isso faz algum sentido. É preciso, no entanto, tomar cuidado quando avalio a inteligência dos olhos de uma mulher, quando estou num estado alterado de consciência (ou seja, sempre), pois o olhar de uma pessoa muda radicalmente de um instante para o outro, e é possível que eu a estivesse flagrando num momento de desatenção nada atraente. Bárbara mantinha os cantos dos lábios bem cerrados enquanto procurava alguma coisa na mala; eu não podia ver o que suas mãos tentavam encontrar entre aqueles agasalhos e leggins dobrados. Ela ficou encantada com minha reação diante de tanto luxo, especialmente quando me levantei da cadeira e testei a cama com um pulo lateral, e ela largou a toalha e pulou por cima de mim, e nós rolamos para um lado e depois para o outro, lutando de brincadeira mas confrontando nossa força física pra valer. Ela não era nenhuma molenga: ----- Já pratiquei karatê (.) -----, ela disse, mas eu a prendi pelos braços em pouco tempo, e ela teve que suplicar: ----- Ah , não, agora não(: deixa eu tomar banho primeiro (.) -----, de fato, ela tinha um plano um pouco maior que o meu para aquela noite: ----- Quero que você desça comigo e conheça o circo de Saratoga (.) -----, e correu para o banho. No centro do quarto, uma grande cesta de frutas jazia em uma mesa de café,com um cartão da gerência do hotel, e havia um bar lateral com uma bandeja de copos e taças de pé alto e garrafas de vinho tinto francês e uma garrafa de cristal lapidado quadrada com uma pequena corrente pendurada no gargalo, onde se lia Johnnie Walker Gold Label -18 anos, e uma outra onde se lia SCOTCH, e uma garrafa com sifão azul de vidro, e a luz da rua entrava um pouco pelas grandes janelas cortinadas que chegavam ao chão; a cama era imensa e o carpete grosso e macio. ''Oito barris de malte para o padre John Corr (.)'', pensei comigo, lembrando que essa frase era a primeira menção escrita ao uísque escocês na história. Consta de um documento de 1494 que listava impostos a pagar, mas suspeita-se que a bebida já era fabricada há muito mais tempo. ''Uma água pura e cristalina, uma linda flor cor-de-rosa chamada urze e um solo especial chamado turfa: está aí o segredo do uísque escocês (.) ''. Me servi uma dose de Scotch e entrei no banheiro segurando o copo, disposto a me sentar na tampa do vaso sanitário para assistir o banho de Bárbara.  Ela ainda não tinha entrado na água, mas o chuveiro estava ligado e ela estava nua: ----- A turfa é um solo orgânico único (eu disse) um material inflamável que faz muita fumaça e pouca chama (: é o que se usa no processo de secagem da cevada (maltagem) transferindo um sabor especial ao malte (: esse malte escocês fica dotado de aromas e sabores únicos cedidos pela urze, uma flor que cobre os campos montanhosos da Escócia (: a água da chuva banha as urzes, capta seu perfume e finalmente escorre pela turfa(: e isso tudo vem parar dentro de um copo de scotch whiskey (.) -----, Barbara me ouvia curiosa, perfeita contra o vidro do box; cismada com minha pronúncia: ----- Whisky não é whiskey (: a primeira palavra é exclusivamente para a bebida elaborada na Escócia (: o resto do mundo usa whiskey(: scotch é apenas o uísque escocês (: lindo sim: os uísques produzidos em ilhas escocesas tem a brisa marítima no sabor e o aroma, e nuances de salgado e de algas são herdadas pelas bebidas que passaram por um longo processo de envelhecimento a baixas temperaturas (: a madeira dos barris absorve a maresia e dissemina-a na bebida (.) -----, ela disse, enquanto eu a admirava: nos momentos que antecedem o banho de uma mulher, enquanto a água está escorrendo, sua nudez repentinamente libera todos os íons carregados de lascívia e ela torna-se integralmente artística: ----- O recepcionista reconheceu você logo de cara (: todo mundo ficou contente lá embaixo quando te viram (.) ----, comentei, pensando : ''Nua para poder banhar-se (: o 'banho': uma palavra tão lisa, macia e modesta que é possível apreciar as minúcias de sua beleza sem ser atrapalhado pela ereção impetuosa que eu estava escondendo na minha calça naquele momento. ----- Tenho quartos reservados aqui para todo o mês de corridas (: quer eu venha ou não , já se acostumaram com minhas festinhas (: no ano passado veio muita gente comigo (: dessa vez eu quis vir com você (.) ------, ela disse, enquanto eu bebericava meu scotch, e de repente ela entrou na água e se tornou aos meus olhos uma bailarina moderna, um riacho de águas cristalinas, uma dríade, uma naturista ou nudista, seus peitinhos deixando de ser peitinhos e passando a ser seios e, de tão tesudas que eram suas formas, elas sufocavam em mim o delicado admirador Ansel Adams que existe dentro de cada um de nós e atraíam para o fogo do meu corpo o apalpador, o punheteiro e o comedor insaciável. Isto ainda apesar dos seus encantos proto-sexuais, suas suaves auréolas abobadadas, o arco californiano de sua bunda no ponto em que sutilmente desembocava nas coxas, todos os quais pude examinar cuidadosamente com ela de pé sob a água. Tirei a roupa e entrei no banho com ela. Não que achasse que o que estava escrevendo na minha cabeça naquele instante fosse necessariamente bom segundo os padrões existentes: simplesmente estava agachado diante daquela que eu considerava a mulher  dos meus sonhos, que eu desejava como minha única audiência literária desde que ela tinha lido minha carta, chupando tão vorazmente os lados da sua vagina que criava automaticamente para ela uma personagem ''ela'' alternativa: uma para ela, outra só para sua vagina.  Era certo para mim que ela gostava mais de chupar bucetas do que ser chupada, nosso namoro era apenas um retiro literário para o meu falo tão duro quanto uma garrafa de Calistoga. Não, ela não queria nada entrando no seu cu: ''Isso eu posso te garantir, K(.)'', pensava comigo. Então nós nos arrumamos para sair: eu com minha jaqueta de piloto de caça e ela em um elegante blazer de linho azul  e calça branca; adorei a idéia de um relacionamento amoroso que estava subentendido em nossos preparativos para sermos vistos juntos. Até aquele momento, nos Estados Unidos, eu não havia me sentido mais do que um traficante ou garoto de programa. Nós descemos, passando pelo saguão do hotel cheio de gente sem ter o que fazer no começo da noite, e quando saímos a noite estava realmente muito fria, e Barbara sugeriu que pedíssemos o carro. Passamos por imponentes gramados sob a sombra de grandes árvores copadas que ocultavam casas imensas, aquele era um lugar bem desenvolvido e para mim era tentador não pensar em nada além dela: ficar ofuscado pela luz do seu oferecimento a ponto de esquecer todas as circunstâncias. ----- Porque se atrasaram tanto (?) -----, uma mulher perguntou à Barbara quando entramos no casarão (era uma festa pequena, só para os que já tinham ''emprestado''  obras para Barbara. Todos bebiam por ali, aparentemente patrocinados por uma marca de cigarros. Uma escultora africana chamada Susan Eula estava no escritório do primeiro andar fazendo uma escultura de Barbara: ----- Ela diz que precisa olhar para mim mas acho que ela só quer um lugar grátis para trabalhar em Nova York (: ela me vê como uma hermafrodita (: é uma escultora terrível, não faz diferença se eu poso para ela todo dia ou não (: de qualquer jeito, vai ficar parecido com um totem (.) ----, Barbara disse, aos risos. ---- Tudo certo (: ninguém pode saber até que ponto  sua arte vai chegar (disse Susan Eula) -----, a outra peça era maior, um estúdio, com as paredes todas brancas e o chão branco. ---- Sei, mas onde está(?) -----, perguntou Barbara. ----- Ali (.) ----- apontou Susan .  ----- Você já produziu muitas esculturas ótimas, Susan (Barbara disse) mas nunca as realizou (: eu vou te encomendar alguma coisa séria e dar os materiais para você, ok(?) eu é que não quero nenhuma desavença com possíveis celebridades da vanguarda futura (.) ----- os olhos de Susan  agora reluziam como dois faróis com megawatts de ganância. Barbara virou-se para mim e fez um olhar perplexo, de aveludada  estupefação. Estava frio como os diabos àquela hora, uns sete graus, e aquela gente toda vestindo agasalhos caros começou a chegar na mansão. Claro, eu e Barbara éramos muito diferentes: nossos perfis mentais, espirituais  ou de caráter estavam  afastados léguas um do outro, mas havia uma loucura sexual no ar que estava submergindo nossos mundos por igual: -----Picasso também passou  seu último período obcecado por aberturas sexuais e falos (.) -----, eu comentei , recordando uma declaração que Kristen Guner tinha feito após alguns drinques; ela era risonha, alegre e sentia-se visivelmente desinibida na festa, ao ponto de tornar-se brutal: ---- Um cérebro de judeu, uma beleza nórdica e um caralho bem grande, é disso que as mulheres precisam(.) -----, meu Deus, eu olhei para Barbara e ela estava rindo : ----- Esta é apenas sua idéia do homem ideal, Kristen (.) -----, ela disse, enquanto eu pensava com renovada simpatia em visões lunares: ''Artemis, castidade lunar (.) ''. Naquela festa, se não era Bruch, abrindo caminho à força nos nossos ouvidos para suas confissões a base de coca; se não era Margotte (porque também ela estava voltando a pensar em coisas do coração após um ano e viuvez) ; mais conversas do que esperanças reais, certo, mais discussoes, laboriosos exames ad infinitum; enfim... se não era Feffer com suas numerosas aventuras de alcova... então lá vinha Kristen com suas confidências brutais e hilariantes. ''Caos comunicativo (.) '', eu pensava, bocejando: mas eu tinha minhas próprias idéias a respeito daquele caos (eu tinha idéias a respeito de tudo, intensamente particulares. ''Mas '' me perguntava ''qual outro meio de ter-se um comportamento próprio (?) ''. O que eu via ali eram pessoas fazendo mímicas caricaturais umas das outras, numa espécie de espelho que reflete espelho continuamente. Aquele que não imita está perdido, e aquele que está perdido não existe. Certamente eu admitia a possibilidade de errar para todo mundo, sobretudo pra mim; eu era brasileiro e possivelmente o que eu estava vendo ali era um fenômeno americano, exportado massivamente para o resto do mundo. Muitas importações européias também tiveram grande sucesso nos Estados Unidos há décadas: psicanálise, existencialismo, desconstrucionismo, etc. Tudo mais ou menos relacionado aos destroços de uma revolução sexual drogada e insólita. Em todo caso, vendi uma quantia considerável de skunk, pó e heroína para toda aquela gente esquisita, e depois de tanta reflexão a única coisa que eu via neles eram ricos consumidores de tóxicos e mais nada. E meu sono tinha ido embora quando eu e Barbara subimos para um quarto para fumar com a encantadora, livre, riquíssima (e um tanto vulgar), Kristen Guner; logo estávamos todos voando debaixo de espessas nuvens azuladas. ----- Porque não nos encontramos em Nova York, Kristen (?) ----, Barbara perguntou, soprando fumaça de skunk pro alto; ela achou a idéia excelente: só não pôde dizer quando, pois estava sempre viajando. Ela era amante de um rico fabricante de sapatos e nem sempre estava ''livre''. Pensei que seria bom encontrar Kristen de novo em NY: ela havia me encomendado uma quantidade absurda de cocaína para o dia seguinte: quase tudo o que eu tinha na mochila. Seu amigo em Saratoga, Jerry, um ex-boxeador que agora estudava direito, tinha saído com ela para jantar e, antes de deixá-la em casa, eles foderam no carro dele. Ela se encontraria comigo na tarde do dia seguinte, no estacionamento do hipódromo, para pegar a droga e me passar a grana. O Dr. Tao (Kristen disse) era o diretor do hipódromo, e um grande amigo dela. ----- Ele vai gostar de te conhecer, K(.) ----, ela disse, fazendo um sorridente gesto com os dedos nas narinas ----- Ele é um poeta (: hahahah(!) -----, completou, às gargalhadas. ----- Acho que você não vai deixar muita coisa pra ele, Kristen (:em todo caso, lembro que Federico Fellini costumava citar em suas entrevistas uma frase atribuída à Nietzsche que eu nunca encontrei em seus livros, dizia: '' O gênio de um homem se encontra em suas narinas (.) '' -----, respondi. Eu e Barbara fomos embora. Chegamos à porta do quarto no Grand Union, um nos braços do outro, ela bem alta. ----- Sinto que voce vai sumir quando voltarmos para NY , K(.) -----, ela disse, saltando sobre mim e manipulando minha braguilha com uma exatidão criminosa. ----- Só se me matarem e sumirem com meu corpo (.) -----, fiquei dentro dela por muito tempo; como das outras ocasiões, ela gozava vezes seguidas, guinchando e grunhindo como uma presa acuada. Sua boca parecia ter-se tornado maior, mais ampla, extremamente lasciva; seus olhos giravam nas órbitas como se estivesse tendo um ataque. Depois de uns vinte minutos, tirei o pau para fora para esfriar a coisa, a sensação era maravilhosa. 

domingo, 26 de julho de 2015

4

Barbara havia conseguido transformar a festa de Natal daquele ano numa festa da sua revista, e eu acabei indo mesmo que Berman tivesse desistido na última hora (tivesse ou não sentido, na madrugada anterior eu estava de folga e escrevi a carta mais louca que um homem já escreveu para uma mulher em língua inglesa:

''Barbara, até hoje tudo o que fiz na vida acabou desastrosamente. Não estou nem mesmo certo do que estou escrevendo neste momento. Eu não compactuo com mentiras e isso irrita as pessoas profundamente; a contrariedade leva muitos a se defenderem contra o meu comportamento . A frase ''porque não escrever à ela(?)'' envolve-me, como desde o primeiro dia em que te vi, num atoleiro de irremediável confusão. Sempre escrevi movido pelo desejo de libertar a imaginação de todas as pessoas, porque (penso) sem o apoio do mundo inteiro, sem um mundo imaginativamente unificado, a liberdade da imaginação se torna um vício. Foi o que aconteceu com a literatura e a arte contemporânea. Mas eu não sinto falta nenhuma de sentir esperança na comunicação com o próximo. Eu nunca me preocupei seriamente com a questao do gênio: já li sobre a vida dos gênios revolucionários da poesia e eles foram sanguessugas desprezíveis, nutrindo-se do sangue da vida e das pessoas; a coisa mais importante para Rimbaud ou Lautreamont era fazer-se inútil, ser absorvido pelo fluxo comum e colonizar o inconsciente humano. sempre que um escritor se mostra melhor que os outros de todos os lados surgem ataques: os vôos mais loucos da poesia, os sonhos mais profundos, as visões mais alucinantes, nada mais são do que toscos hieróglifos cinzelados em dor e tristeza para comemorar um evento que é intransmissível e, frequentemente, ininteligível. As grandes obras de arte servem para nos fazer sonhar com aquilo que é fluida expansão da consciência. Com grandes estados de consciência alterada. A arte de ---- (continua

Coloquei a carta na minha mochila e me deitei na cama com os olhos bem abertos, pesquisando a escuridão como quem busca ver o próprio futuro; mas via apenas Berman caminhando meio bêbada com os sapatos azuis de salto alto, e as pupilas dela estavam dilatadas (no sonho, mais adiante, um fotógrafo da Times fotografava Barbara fotografando Victor fotografando Berman fotografando Melissa fotografando-me, enquanto eu trabalhava atrás do balcão do bar, e ela dizia: ---- Pois você vai ter que subir na vida fodendo com quem você não quer foder(: recompensa(: um relógio de cobra de Bulgari , nada mais(.) -----, e passei heroína sob meu nariz (cavalgando o dragão pela segunda vez; e lembrei daquele carro passando numa travessa escura da Convent Avenue, no Harlem, como jamais tinha visto até aquela noite. Os faróis clareavam a rua por instantes e com a iluminação do painel dava para ver os três sujeitos dentro e a garota de sempre: uma bela africana de olhos brilhantes e um sorriso alvo em contraste com a pele preta. Senti um calafrio: era Betty de novo. De cara me pareceu impossível que minha Sassafrás estivesse naquele carro com chapa de concessionária, ao lado de figuras tão irreais. Através de Betty, eu tinha me tornado alguém com fama de bom negociante entre aqueles sujeitos; um ''mágico. ----- Seu amiguinho (o motorista disse para Betty) está fazendo um belo serviço pra nós (.) -----, me passando vários saquinhos de 100 gramas de skunk e 30 gramas de heroína. ----- Cuidado com a ''auto-medicação'', K (.) -----, Betty disse, rindo com uma expressão de surpresa no rosto, acompanhada de um rápido giro de cabeça. Entrei no carro e ela ficou entre eu e o capo no banco de trás; no momento seguinte, estava ajoelhada no banco , olhando pela janela traseira. ----- Alguém está nos seguindo (ela disse) não olhe (!) -----, mas eu estava muito feliz para me incomodar. Pensava que era apenas um pouquinho de histeria, observando-a atentamente enquanto os homens trocavam ordens rápidas e alternadas para seguir por aqui ou por ali. ''As ruas estavam escuras e não era só da noite(.)'', o carro era preto e Betty estava vestida de preto. Apanhei a mão dela e apertei-a suavemente. Ela esboçou um sorriso, como que dizendo: ------ Você sabe, K(... negócios são negócios (.) -----, e subitamente tive consciência do perigo, associando os fatos à minha louca maneira. Refleti...ninguém estava nos seguindo... tudo coca e paranóia de onda ruim: mas alguém estava atrás dela novamente, por aí. ''Isso nunca vai mudar(.)'', pensei (nada do que ela contava nunca fazia sentido, e talvez eu estivesse me envolvendo com um monstro, o mais delicioso monstro imaginável. No apartamento da Rua 125, Grave e Ed estavam na mesa perto do fogão, os sobretudos dobrados sobre os encostos das cadeiras de madeira e gotas de suor brotavam no couro cabeludo deles e escorriam pelos seus rostos latinos. Ed já tinha cabelos grisalhos e uma cicatriz em forma de meia-lua no rosto feita por Grave com o cano do revólver : ----- Ele ficou alucinado por terem jogado ácido nas suas costas(.) ----, Grave disse, mas o rosto rude e encaroçado de Grave não ficava atrás; ele chupou a cartilagem da última asa de frango e colocou os pequenos ossos brancos na pilha que já havia em seu prato. Então, disse com voz baixa: ----- Aposto uma garrafa que ele não consegue vender tudo até o ano-novo(.) -----, eu analisava a quantidade que tinha me comprometido à vender.Vinham empurrando cada vez mais pra cima de mim. O bando de Cásper não era gentil, mas nutriam simpatia por seus colaboradores e eram particularmente gentis comigo . Me chamavam de ''mágico'', por causa da velocidade com que eu escoava a mercadoria deles na noite de Nova York. A destreza é que importava: um exercício igual à andar como um equilibrista; eu tinha flexibilidade e faro, podia entrar na cabeça de alguém na boate à metros de distância do balcão do bar, e saber num estalo se ele ou ela estavam atrás (nunca errava: tinha a visão interior apurada e podia ouvir o silêncio tagarela dentro da cabeça das pessoas . ----- Talvez uma garrafa seja pouco(: dobro a aposta que ele consegue(.) -----, Ed disse. ----- Que merda de aposta é essa, pessoal (?) -----, perguntei à eles, tentando rir. ----- Andei comendo uma oficial chamada Ema Limme (contou Ed) comi numa daquelas viaturas Victoria Crow já que ela é casada e não gosta muito de passear (.) -----, Grave riu, olhando para ele cheio de gratidão: ----- Ed está muito conversador hoje(: ele só está querendo dizer que não há com o quê se preocupar (.) ----, e sem que ninguém percebesse, Grave já estava com o revólver niquelado na mão, esperando que eu e Betty saíssemos com a droga deles e só voltássemos dias depois. No táxi, senti a mão hesitante de Betty na minha perna. Ela se tornava mais inocente aos meus olhos à medida que eu pensava nela mais diabolicamente. Meus verdadeiros pensamentos ela nunca conseguia penetrar, penetrava mais fundo do que o pensamento, lendo minha situação espiritual dentro dos meus olhos como se tivesse antenas. E logo percebia que, qualquer que fosse o jogo que fingisse jogar comigo, tinha encontrado seu igual. O motorista tinha parado o táxi, pedi para que ele esperasse um pouco adiante na West 9 th: estava de frente para Betty no banco de trás, as mãos apertadas, os joelhos tocando-se, um fogo correndo através das veias (como em alguma cerimônia antiga, o silêncio quebrado apenas pelo ronco do motor. ---- Telefono amanhã (ela disse) inclinando-se para um último beijo(: estou gostando do garoto mais estranho da terra(: voce me assusta, K(: mas acredite em mim sempre, se não te conto tudo sobre minha vida é porque você também é assim comigo(.) ---- ela parecia sorver a música silenciosa da noite e se banhar no verniz da falsa honestidade até quase parecer uma santa, o que me fazia pensar no modo como meu mundo agora girava como uma bola maligna jogada por Deus. As cortinas do meu quarto estavam fechadas quando eu entrei e foram iluminadas por um clarão súbito. Fechei os olhos rapidamente e logo depois vi Melissa saindo do chuveiro enrolada numa toalha, os olhos tortos. ----- Como você entrou aqui (?) ----, perguntei, preocupado com aquilo. ---- Fiz uma cópia da chave(.) -----, ela disse, e me dei conta de que, perigosamente, eu havia perdido o pouco controle que ainda tinha sobre a vida.

''Barbara, sonho constantemente com um novo mundo resplandescente que desmorona assim que acendo a luz do quarto; existe então um mundo em mim que é inteiramente diverso de qualquer mundo conhecido. Não o julgo propriedade minha, mas o ângulo privilegiado de minha visão é exclusivo e portanto único. Se falo com alguém a linguagem da minha visão, ninguém me entende; o edifício mais colossal poderá ser erguido e no entanto permanecer invisível. Este pensamento deve ser aceito como premissa. Qualquer pessoa que busque reconhecimento está apartada da vida espiritual. Ao mesmo tempo, me pergunto para quê construir um templo invisível? Já escrevi sobre isso um milhão de palavras. Mas poderia também dizer: um milhão de folhas de capim.. Outro dia eu repousava no escuro, e num estalo tudo aquilo que só eu via estava aqui de novo; eu era um galho flutuando na corrente japonesa de um nanquim psicodélico. Voltava ao simples abracadabra da meditação, que faz tijolos e degraus, ao esboço rude, ao templo invisível que deveria tomar meu sangue e meus pensamentos e revelar-se na luz omnisciente. Levantei-me , depois, e acendi uma ---- (continua)

A decoração e a comida e a casa de Barbara Berenson em Montauk eram como a página central da House and Garden. Barbara não havia convidado ninguém interessante, nenhuma beldade notável, apenas colaboradores de sua revista, mas havia muito caviar: caviar tirado de uma lata enorme. Todas as meninas da família dela eram loiras estonteantes, bronzeadas e californianas; mas (segundo Victor Blythe) seus irmãos eram só ''arrumadinhos''. Na noite de Natal, Barbara estava usando uma linda ametista Fabergé enquanto eu calculava o estrago que lhe entregar minha carta poderia causar. Mas ela me perguntou: ---- O que voce tem escrito ultimamente, K(?) -----, e eu não resisti: ----- Em detalhe tudo sobre sua vida sexual(: sexo com Barbara Berenson e tudo o mais, como ela era penetrada e gemia nas noites (.) ----, e estendi para ela a carta que tirei do bolso junto com um saquinho de 100 gramas do melhor skunk que eu conhecia em Nova York. Acrescentei: ---- Seu presente de Natal (.)----, e ela adorou o presente, e ficou intrigada com a carta:----- É para ler agora (?) ----, perguntou ela. ----- Por favor, não (.) ----- respondi. Naquele momento, Victor Blythe entrou na sala e acho que ele passou alguma coca para Barbara, dizendo: ---- É a última que tenho (.) -----, entao eu calculei logo que venderia toda minha mercadoria com facilidade por ali. Barbara foi até o banheiro e voltou como um zumbi. Foi estranho (havia muita gente na casa bebendo) pareceu-me que ela tinha dado uns tiros e lido um pedaço da carta; seu comportamento mais atencioso comigo parecia querer dizer que ela estava realmente me aceitando como o novo menino Jesus ou algo assim. ''Não existe avatar com mais de 40 anos (.) ----, eu disse: ----- Os Budas são como eu, não como ninguém mais (.) -----, as pessoas foram capotando uma a uma, de tanto Dom Perignon. No quarto se reuniram algumas pessoas mais tarde, e ela abriu seu presente de Natal. Havia roupas novas por toda parte e uma das garotas no quarto passava-me a impressão de ser apaixonada por Barbara: bem, ouve um momento em que restaram nós três no quarto; vi, pela maneira como Lucy olhava para ela, que gostava mais dela que eu, que tinha mais em comum com ela do que eu jamais teria; gostei imensamente dela: era uma garota correta, honesta com seus sentimentos até a medula dos ossos, bondosa, atenciosa, o tipo que daria o que se pode chamar de uma boa amante. Barbara disse que estava procurando um novo apartamento para morar e eu sugeri Park Avenue, mas ela disse que ''tinha uma imagem para proteger''. ----- Para ''zelar'', você quer dizer(?) -----, perguntei. ----- Não , para proteger mesmo (risos) para esconder (mais risos) ---- para ''editar'' (.) -----, disse ela, e inesperadamente começou a mostrar para mim e Lucy fotos dela nua com dezesseis anos, uma quantidade generosa de pele. Voltei a me lembrar da carta. ---- Quem tirou essas fotos , Barbara(?) seu primeiro namorado (?) ----, perguntei. ---- ''Namorada'' (.) ----, respondeu-me, acrescentando que no ano passado a mesma pessoa havia vindo à Nova York só para pedir sua mão em casamento. Para o meu espanto, Lucy saiu do quarto junto comigo, e Barbara dormiu sozinha. Assim que fechei a porta atrás de mim, no quarto de hóspedes, desejei que ela não lesse minha carta, e fiquei um tempo remoendo frases que eu tinha escrito.

''Barbara, uso tantas frases extravagantes nessa carta porque não sou capaz de dizer essas coisas pessoalmente sem parecer ridículo; e talvez tudo isso seja uma desculpa para algo que nem por escrito fui capaz de dizer ainda. ''O que meu coração concebe no escuro é batizado na luz (.)''. Quando lembro-me do seu rosto me invade um sentimento tão forte de exaltação que me sinto como se estivesse escrevendo uma carta para o próprio Criador. O calor da lembrança perdura noite adentro, fluindo de volta do outro lado do horizonte curvo. Não podia ter escolhido hor ----- (continua)

Sol. O caseiro ficou excitado durante todo o fim de semana porque Barbara tinha dito à ele que lhe compraria um jipe novo de presente de Natal. Lucy e Victor Blythe discutiam a capa da nova edição da revista: ele queria que eu colocasse alguma coisa escrita e não autoral nas margens e eu, educadamente, disse que preferia não mexer com isso e que estava satisfeito após vender metade do meu estoque para ele e seus ''amigos'' na praia mais cedo. Jean Lambert estava sentado na areia com um cachorro enorme analisando os saquinhos que eu tinha lhe passado. Eu o ignorei por algum tempo e depois vi que era Robert Di Mona, o marchand italiano, quem tinha deixado o cachorro com ele para ir experimentar a erva dentro do seu carro no estacionamento. Falavamos um pouco sobre generalidades artísticas e ele quis arrancar-me um saquinho extra de heroína, e então Victor o convidou para o almoço na casa de Barbara. Ele veio com seu namorado, Peter, que ficou beijando Victor escondido , na cozinha. Mas todos estavam se entendendo bem. ----- Compro arte desde os vinte anos de idade e empilho tudo em minha casa em Bruxelas como os Collyer Brothers (.) -----, Jean disse-me. Eu fiquei entrando e saindo do almoço porque Lucy e outras lésbicas estavam pintando uma tela enorme com uma vassoura de esponja nos fundos da casa. Antedi dois telefonemas de Grave e conversamos por código: ---- Acho que você vai perder aquelas garrafas(.) ----- De tarde uma garota sueca apareceu na casa unicamente para perguntar quem estava vendendo skunk e minha surpresa foi total quando me dei conta de que ninguém ali sabia quem era ela. Coloquei um baseado para fumarmos no ateliê dos fundos e no fim ganhei vários beijos suecos na boca e ela comprou todo o skunk que restava na minha mochila. Barbara veio me buscar para participar de uma pequena ceia que uma mulher chamada Diane von nao sei das quantas estava improvisando no andar de cima. Eu pude notar que alguns serviçais ali tinham medo de que as pessoas desmaiassem de chapadas; a maioria delas estava sentada em cadeiras de praia com a cabeça para trás e cantando para si mesmas. Colocavam e tiravam os óculos escuros, e a parte de cima de seus corpos pareciam gelatina de carne. Quando finalmente tive um momento exclusivo com Bárbara, ela pareceu estar fazendo o melhor para entender o que havia lido. O meu eu verdadeiro, aquele que prontamente perdeu as rédeas daquela conversa, era quase um estranho para mim: ----- Eu sei que para você eu sou apenas uma mulher rica e bonita  e você conhece um pouco da vida que levo, K  e tem fortes intuições e fica imaginando coisas sobre mim (.) ----- ela disse, levantando a taça vazia para que eu a enchesse de Dom Perignon. ----- Fico contente que você tenha lido minha carta (.) ----, minha cabeça estava dando voltas enquanto ela levava a taça aos lábios, imaginando que aquilo eram as preliminares de uma estranha descoberta. Ela veio e sentou-se no meu colo, dizendo: ----- Vamos conversar então (.) -----, e entornou um pouco de bebida dentro da minha boca. Fiquei mais assustado que surpreso, e completamente desconcertado quando ela disse: ----- Eu nunca fiquei com um homem na vida (.) -----algo em que realmente eu não conseguia acreditar. : ---- Nunca, acredita nisto (?) ----, e começou a rir na minha cara. ----- Isso que você está fazendo comigo é cruel, Barbara (.) ----- eu disse. Um momento de silêncio, olhos nos olhos. ----- Você imagina muitas coisas sobre mim , não é (?) mas se quisesse algo mais, teria que me conhecer melhor, certo (?) -----, perguntou-me. Admiti que ela tinha razão, mas argumentei que a visão que eu estava tendo dos peitos dela no sutiã, naquele momento, estando o sutiã visível sob sua blusa, até que era bem maravilhosa. ---- Espera um momento, K (.) -----, ela se levantou do meu colo e acendeu um cigarro. Olhou para mim: -----O problema com você é que você nunca se entregou à um trabalho digno de suas forças(: você precisa de problemas maiores, dificuldades maiores, você é alérgico à banalidades, pois só produz satisfatoriamente quando muito pressionado(: essa vida que você leva não é adequada para você(: você foi feito para levar uma vida perigosa (.) ----, ela disse. ----- Receio que seja justamente o contrário, Bárbara (.) -----, observei. ----- Mas você sabe que é... protegido, não sabe(?) quantas vezes você esteve próximo de morrer e as coisas tomaram um rumo tão insólito que você acabou se safando (?) pense bem... quantos crimes você já deve ter cometido, crimes cuja autoria ninguém nunca lhe atribuiria ( ok, talvez eu exagere: mas como disse na carta, você não está agora com um affair tão perigoso, um caso que, se você não tivesse nascido sob uma estrela invencível, já teria lhe arruinado (?) você me olha de uma maneira estranha, apaixonada, mas isso não é nenhuma paixão; quando você escreveu aquela carta, sabia exatamente que iria ter uma mínima chance, calculando cada detalhe imaginável de tudo; você não tem dinheiro, nem poder e nem influência, mas quem quer que seja sua mulher, eu tenho pena dela; você vê as mulheres como mais fortes que você, porque duvida de si mesmo constantemente, no seu cálculo absurdo de tudo, mas você é o mais forte, sempre será o mais forte em qualquer relação, porque você só é capaz de pensar em si mesmo, no seu destino anônimo, e ama a vida mais do que a si mesmo; se voce fosse um pouquinho mais embrutecido eu teria medo de você, poderia se tornar um fanático perigoso, mas eu sei que você está pronto para fazer qualquer coisa a fim de satisfazer seus instintos (... e talvez eu lhe corresponda, sabia(?) você continua me olhando de uma maneira estranha, se perguntando de onde foi que eu tirei todas essas conclusões, com quem foi que eu andei conversando(: veja só , a poucos instantes eu olhei para você lá embaixo e vi que você estava esperando ansiosamente que eu viesse e iniciasse algo. Sabia que isso aconteceria e sou capaz de jurar que você tinha o controle milimétrico do tempo, dentro de você há sempre uma carta na manga esperando a poeira baixar, e agora eu vim até você e você está paralisado (um pouco assustado, hein(?) -----, ela disse, e assenti com a cabeça, indefeso. Seu sermão continuava: ----- Você vive meio confuso porque está sempre olhando além do objeto do seu amor, procurando algo que jamais encontrará (.) ----, levantei-me da cadeira, fui até lá. Quando afastei os lábios dela olhei no fundo dos seus grandes olhos verdes, colocando os braços em volta da sua cintura. Para ela aquilo tudo era floreio verbal, seu prazer exuberante estava mais tanto em mostrar-se chocante quanto em realmente sentir a carga sexual do nosso idílio. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

3

O que eu estava fazendo na Ponte do Brooklyn? Havia ainda algumas horas para matar naquela tarde antes de seguir para a Time Square; uma hora de transe profundo vendo acima de mim a trama imensa daquela ponte e a sorveteria perto do rio: ''Dezembro'', pensei ''será que vai começar a nevar um pouquinho(?)'', me sentindo meio estranho após um jantar festivo na casa de Barbara Berenson na semana passada: nunca vou esquecer (de táxi com M. Berman até 45 Sutton Place Sul: uma festa literária para alguém chamado Nick, aparentemente amigo de algumas celebridades que também estavam presentes, mas que eu tampouco sabia quem eram. Barbara nos convidou para passar o natal com ela e sua família em sua casa em Montauk, na ponta mais ao leste de Long Island: uma propriedade em frente ao mar que incluía um casarão principal com três casas menores mais a casa do caseiro: chegaremos lá... mas eu ainda estava olhando distraidamente a margem oposta do rio ( o menino experimental atira uma granada em forma de falo na mãe de Cristovão Colombo, sepultando as Américas; o fator vento fazia como se fosse 15 graus negativos. Eu tinha acabado de ler no jornal uma matéria sobre uma prima de Bárbara vendendo seus diamantes em segredo na Madison Avenue para ajudar a campanha do marido ao Congresso e voltei a pensar no apartamento de Barbara e naquela festa. Como gente rica adora falar sobre empregados durante o almoço e o jantar: haviam seis serviçais servindo comida enlatada e Champagne Moet Chandon. Victor Blythe estava lá parecendo um pouco mais velho e mais gordo; ele estava conversando alto na mesa de Barbara e o rapaz inglês de Berman tentava ser charmoso em outra mesa, mesmo tendo sido passado pra trás; ele perguntou à Barbara se ela podia levá-lo à outra mesa para apresentá-lo ao autor e ela disse que não. Eu estava sentado num sofá sobre o qual haviam duas pinturas na parede: O absinto, de Degas, e A xícara de chocolate, de Renoir, pensando: ''Ela tem essas pinturas em sua casa(: é inacreditável(.) ''. Miss Berman reapareceu após algum tempo e me levou para ficar bebendo champagne com ela em volta do bar que havia sido montado; logo começou a chegar mais gente. Uma das modelos que passaram pela porta me chamou a atenção: chamava-se Diana Dodass e eu tinha certeza de tê-la visto num bar de striptease em Chelsea onde eu tinha ido sozinho há dez dias; era tão alta quanto magra, e eu estava tão entediado naquela noite que fiquei o show inteiro vendo ela roçar a bunda e a buceta no chão do palco. Miss Berman vinha bebendo cada vez mais: ----- Gosto mais de você do que você imagina, K(: com você eu nunca me sinto cem por cento segura(.) -----, ela disse. ----- Só vou passar o natal na casa de Barbara se você também for(.) -----, respondi, desviando um pouco o assunto. ----- Estou um pouco farta de viajar(: a gente vai a toda parte e é sempre a mesma coisa, a mesma pessoa abrindo as mesmas malas(: você é que está certo: encontre um canto qualquer e crie seu próprio espaço interno(: ainda assim, todo o lixo vem atrás de você: a televisão, a aldeia global e tudo o mais (.) -----, disse ela, finalmente vazia de palavras. ----- He he... ninguém viajou mais do que eu nos últimos anos(.) ----, comentei, vendo pela janela do vigésimo andar as vestes azuladas da noite costurada pelos pontos brilhantes dos edifícios que se estendiam pela sujeira e o lixo da cidade. Acrescentei: ---- O motivo pelo qual não se fazem mais coisas incomuns e surpreendentes não é elas serem particularmente impraticáveis, e sim o fato de que a maioria das pessoas não têm imaginação bastante para concebê-las (.) -----, mas meu comentário lhe pareceu ''comum'' e ela fingiu não ligar. ----- Só gosto de homens que beijam como um meio para chegar a um fim(.) ----, ela disse, passando a mão pelo meu pescoço, e concluiu: ----- Quando estou com você, eu digo: ''Eu e K somos os únicos artistas de verdade no mundo(.) '', e quando estava com John (o rapaz inglês) , eu dizia: ''Eu e você somos os únicos que entendem a alta sociedade(.) '', e quando estou sozinha, digo pra mim mesma: ''É, Berman, você é única(.) '' -----, eu ri, fingindo ver algum sentido no que ela dizia. Ela fez uns gestos provocantes com a boca pra mim. Quando ela decidiu beijar-me publicamente pela primeira vez, ali, seu ex- na outra mesa viu e disse à Victor Blythe: ----- Ela realmente merece uns beijos(.) -----, mas quando ela me empurrou para dentro de um quarto e por quinze minutos ''não me deixou sair'', Victor disse que ele ficou muito puto. Como nós ríamos dentro daquele quarto ao longo desse período de transição. Havia outros quartos com gente dentro durante aquela festa. Uma extravagância dupla de Berman nos levou por um tour no meio daquela gente esquisita: pick-me-up na colher sob alguns narizes e marijuana. ----- Bem, e então, meu cabelo está bagunçado(?) -----, Berman me perguntava a todo minuto, retocando o batom (CORTA: quando finalmente me levantei da Ponte do Brooklyn e saí meio cambaleante, eu era como um homem sob anestesia que conseguiu escapar da mesa de operações; tudo me parecia distante e sem sentido na rua, sentindo uma incrível dificuldade para coordenar as percepções que pelo cálculo reflexo habitual significariam pessoas, carros, edifícios e o tempo. Acendi um cigarro: ''Alô, Melissa, como você está(?)'', e ela me devolveria aquele sorriso enigmático e invisível do outro lado da linha. Mas eu odeio falar no telefone e não liguei. ''Isso terá lugar mais tarde'', pensei ''sob os possantes holofotes e luzes giratórias do P.43, com alguns centímetros de isolamento de madeira do bar marcando um círculo místico entre nós''. Berman foi quem me ligou e voltou a insistir que eu já tinha dinheiro suficiente para regenerar meu guarda-roupas. ---- Mas eu não tenho guarda-roupas, tenho só uma mochila e um ferro de passar (.) -----, respondi, procurando fugir do fino da moda masculina na 57 th Street e Fifth Avenue (Michael Kors, Bill Blass, Liz Claiborne, Calvin Klein , Ralph Lauren e haute couture a preço estratosféricos: ela disse que atrasaria essa noite e eu segui caminhando até os pontos de ônibus pronunciando palavrões e destilando pensamentos que mais tarde eu precisaria explicar para mim mesmo antes de dormir, pois eu vinha estudando inglês através de alguns historiadores da civilização na biblioteca pública após comprar um green-card falso na Jamaica do Queens (Freud, Toynbee, Burckhardt ou Spengler; e algumas incursões paralelas pelos livros de Adorno e Marcuse que eu já conhecia: após duas semanas dessa dieta filosófica eu me revoltei contra tanta chatice e me limitei à ler Meister Eckhart em latim: os Sermões e as Palestras de Instrução. Mesmo assim, convivendo com todas essas novaiorquinas realmente afetadas, eu vinha aprendendo alguma coisa sobre as sutilezas de ser ''chic'' de verdade; Berman para mim era a mulher que tinha mais classe entre elas (lia bem mais que as outras), mas no sentido em que o termo é usado nas ruas de Nova York: ela tinha ''fibra''. Quando as coisas não saíam como ela queria, ela se estressava um pouco mas logo voltava a encarar as coisas numa boa e dava a volta por cima; Barbara me fazia pensar mais numa espécie de Cinderella científica com a cabeça sempre erguida e uma rosa de diamante em cada um dos olhos, mas era ela quem eu queria. Atravesso a rua e entro no edifício do P.43, nas grandes pistas de dance de Ibiza dos adeptos do sexo em pó; caixas de som coladas como barris duplos de uísque, inundadas naquela hora da noite por um tépido brilho de boudoir. ''Ainda está cedo'', pensei: apenas fantasmas valsando numa doce névoa com cheiro de chicletes. Miss Berman ainda não chegou. A nova onda de frio é o único assunto entre as garotas que trabalham comigo no bar, o único bartender homem além de mim no segundo andar da boate virou taxista de uma frota do Bronx. Entre as batidas de drum´bass do teste de som ouço uma ambulância retinindo lá fora, seguida de carros de bombeiros e sirenes de polícia; a valsa eletrônica perfurada de angústia anônima. Berman ainda não está na boate: penso nela deitada em sua cama lendo um livro, ou fodendo com um lutador de boxe... acho que não: uma das bartenders comenta que a viu ali mais cedo saindo para um happy hour no Top of the Tower, em homenagem à Tom Castelli, novo editor do *** e possível gancho para o American Council of the Arts, que não é o Conselho de Artes de Nova York , mas administra verbas consideráveis e distribui dinheiro para artistas ungidos. ''Vista memorável e esplendor alcóolico-pianístico'', calculo comigo: a bartender ao meu lado, Florie, talvez soubesse de mais algum detalhe: Florie tem uma boca larga e olhos azuis, e está fresca como um gerânio ao pronunciar as palavras que me interessam: ----- Acha mesmo que ela não virá esta noite, Florie (?) ----, pergunto; ela acha que não: ---- Acha que ela vai passara noite com alguém (?) -----, insisto, e ela começa a rir, e eu também, pensando num festival de foda durante a noite toda naquele belo apartamento na 77 com Fifht Avenue. -----Você costuma chorar quando passa muito tempo sozinho no seu quarto na West 9 th, K(?) -----, Florie me pergunta inesperadamente. Ouço a chuva batendo de leve do lado de fora, com tambores rápidos e surdos, e enquanto olho nos olhos dela penso por um centésimo de segundo que vou me apaixonar por ela. ----- Nunca (.) -----, respondo. Ela ri. ''Florie'', como foi que eu nunca te percebi aqui antes. -----Pois eu chorava muito quando vivia assim, distribuindo fichas em Las Vegas (.) -----, ela diz, rodada de suor e água de rosas despetaladas nos olhos, a conversa recaindo talvez sobre calos do seu passado que não me interessam, os djs perscrutando nossa aproximação através da névoa de chicletes com olhos gelatinosos e intrometidos. O rosto dela está aberto para o meu num sorriso gélido. ''Bem'', penso ''acho que ela está meio que me desafiando, tentando me fazer mais amplo(.) ''. Os pontos de interrogação de nossos olhos mascarados comunicando-se a recíproca solidão de nossas almas, prometendo secretamente um pouco de tato, dialogando com a precipitação e o enigma. ----- Eu sei de tudo entre você e ela, K(.) -----, Florie diz, obedecendo à um rito ininteligível de feitiçaria interpessoal. Finjo rir (mas não quero) investigando meus passos na areia movediça de suas palavras. ----- Não entendi (.) ----, protestei, e ela se limitou a dizer: ----- Preciso muito do meu emprego aqui, K (: vamos voltar ao trabalho(.) -----, e sumiu para dentro da cozinha, com uma rapidez insinuante: pura penetração própria, uma eficiente furtividade adejante, como um ''até logo'' recheado de ''adeus''; algo deslizante (eu pensava) magnânimo e triste. ''Ainda vou oferecer à ela uns pegas num baseado pra ver no que dá(.)''. Mas naquele momento, a única coisa da vida real que estava fazendo falta para mim atrás daquele bar era um tiro de cocaína e uma ida ao banheiro para mijar. Florie(!), que coisa: uma espécie de charada que desmoronou como uma cachoeira no meu espírito ao longo de toda a madrugada até de manhã cedo; as detonações de telepatia de Florie e o desajeitado fervor da sua mímica ao fazer os drinks me olhando meio de lado, dispensando a representação de palavra por palavra com agudas expressões faciais irônicas e sorrisos gélidos. A rosa que florescia no meio da corrupção, e eu deveria acreditar que tudo mudaria subitamente ao pegá-la pra mim, apenas amando e sendo amado. À uma da manhã, no entanto, ao voltar do banheiro, nada havia mudado a não ser meus pensamentos, aturando Melissa debruçada no balcão do bar diante de mim, dizendo que tinha lido e relido a Doutrina da Não-Mente e de como era bom agora estar ali comigo e não estar chapada com nada. ---- Mas essa já e a sua sexta cerveja(.) ----, eu disse. O rosto dela voltado de perfil para mim, a garota era estranha em sua beleza e confusão. A porta do segundo andar foi aberta num puxão e a figura de um jovem gay alto bloqueou a entrada, logo surgindo um dos ''amigos'' de Victor Blythe acompanhado de Berman e apresentando-a ao jovem alto que parecia ser um namorado; o amigo de Victor era bem desmunhecado e abraçou Berman por trás, inofensivo. Melissa percebeu que eu estava acompanhando aquela movimentação à distância e disse: ----- Roman Polanski (uma vez) foi acusado do estupro de uma menina de treze anos que ele levou à casa de Jack Nicholson em 1977, e no dia seguinte a polícia foi à casa do ator procurar a menina porque os pais dela tinham dado queixa na delegacia (: prenderam Anjelica por porte de cocaína e algumas semanas depois Polanski foi visto no Oscar sob fiança agarrando uma atriz amiga sua por trás e dizendo (aos risos) que ia estuprá-la (.) ----, e começou a rir na minha cara. ---- Você conseguiu, estou sentindo ciúmes (.) ----, eu disse. ----- O nome dele é Jean Lambert (: eu e Berman demos uma chegada na casa dele em Bruxelas (Melissa disse) no começo do ano (: ele mora numa cobertura num edifício de dez andares em cima do banco do pai dele(: inacreditável, muita arte de Van Gogh à Picasso e criação de cavalos de raça na França e Lichtensteins´s da última fase (eu não gosto de Pop Art: eu disse à Melissa) - (Melissa retrucou: ----- A natureza morta da porta do banheiro é um charme (.) -----, mas eu não gosto, repeti. Ela continuou: ----- O quarto de Jean era atrás de uma estante de livros na biblioteca(: um apartamento secreto dentro do outro(: um quarto para esse namorado regular dele (o alto aí) e outro para os bofes de uma noite só(: depois de um jantar num pequeno bistrô na Galleria caminhamos pelas arcadas e paramos num bar gay e Jean subornou o menino mais bonito da casa e lá se foram eles para seu quarto (.) -----, Melissa disse; a porta da boate me olhando na cara (Berman) todo mundo meio que na defesa, todo mundo trabalhando mentalmente, todo mundo treinando para ser esquivo e evasivo (Florie). ----- Eu e Berman encontramos Victor na festa de Barbara e ele estava péssimo; no final da noite continuava bebendo, falando de modelos que tinha promovido em campanhas recentes e reclamando: ''----- Tenho tanto sucesso, não sei mais o que fazer(.) -----'', ele está ficando doente e doido(.) -----, eu disse para Melissa, não ouvi o que ela respondeu. Ela ria. Passei cerca de quarenta minutos fazendo drinks um atrás do outro, dividindo meu campo de visão entre Florie muda e frenética ao meu lado e Berman conversando com novas pessoas à distância. Pâmela (a modelo brasileira que Victor tinha promovido à ''renomada modelo do momento'', estava agora ao lado de Berman; essa modelo não estava com a maquiagem certa (pensei na hora: e por isso sua aparência não era das melhores; ela queria ser atriz (nos contou na festa de Barbara) e Berman por um momento achou que ela estava reclamando que Barbara era rica mas não seria tão boa para dar um impulso à sua carreira e por isso saiu e foi para a festa de um tal Keith, um jovem diretor de cinema, e provavelmente agora estava contando à Berman que a festa de Keith estava ótima e que  (ele sim!) seria bom para ela. Na verdade, eles vieram em bloco até o balcão do bar e eu pude ouvir toda a conversa. Berman dizia: ---- Até os anos setenta os diretores de cinema costumavam ser másculos, carrancudos, tipo machões (: mas agora todos eles são esses sujeitinhos tipo bicha circulando e beijocando as atrizes à francesa, mas ainda acham que são machos (.) -----, Pâmela ria, com seus brincos de brilhantes, aparentemente confusa com aqueles comentários, sem saber agora ao certo onde deveria estar: a modelo bêbada habitando os ares em busca de estúdios, nem me cumprimentou. Berman também não. Melissa tinha alguma razão, afinal. Berman era uma cinza vulcânica sendo soprada pra lá e pra cá pelos ventos do comércio de arte. ----- O fundamento econômico de se colecionar a ''última palavra'' em arte é irracional (: simplesmente não existe (: até o fim dos setenta, o preço de um novo Lichtenstein ou um novo Stella não era determinado pela demanda do mercado(: até porque, não existe exatamente um mercado; são quase sempre os mesmos compradores idiotas (: cerca de quarenta ou cinquenta cabeças querendo construir uma coleção que faça sentido ou serem rastreadores de fetiches vanguardistas (: pelo menos era assim: o novo Lichtenstein!, o novo Poons!, o novo Rauschenberg!, o novo Dine!, o novo Oldenburg!, essa restrita competição acefalada é que fazia o preço subir nas galerias, o valor de revenda sempre caía; para sustentar um holograma mercadológico desses, a mídia entrava no malabarismo frenético promovendo de forma mafiosa o ''grande espetáculo'' da compra de uma reprodução de objetos banais de... por exemplo: Johns, que então passava a ser ''colecionado publicamente'' com uma pompa inexplicável e suja(.) -----, enquanto Berman falava, a boate era invadida por pessoas com looks cada vez mais sofisticados; ela adotava progressivamente um ar de maternal benevolência à medida que ficava bêbada e atraía a atenção das suas jovens companhias, e presidia com volúpia os drinks que eu e Florie íamos fazendo e colocando em cima do bar, ou a ligeira ceia que vinha da cozinha nos fundos: sancocho dominicano; mandongo cubano; pollo picado com fritas mexicano; soufflê de sesos colombiano. Berman e Melissa bebiam e observavam com ar divertido aquelas pessoas devorando esses quitutes. ----- Uma amiga minha da faculdade disse que apareceu uma c´ritica elogiosa no Los Angeles Times às esculturas que você comprou(: o cara é da Carolina do Sul, não é (?) ------, Melissa perguntou à Berman. ----- Vou aproveitar para ir até a 57 th Street amanhã (risos), eles morderão a isca (... -----, respondeu Berman. ''Se ela me convidar, eu irei(.) '', pensei: os sábados em Nova York são divertidos naquelas lojas de antiguidades com um leve brilho dourado aqui e de marchetaria vermelho-escuro em couro ali (e galerias e mais galerias cheias de ninfetas peitudas e renascentistas através das vidraças sentadas de pernas cruzadas com cabelos pré-rafaelitas: a patética ninfeta cultural de Nova York... . ----- É preciso apanhar no ar o ''filling'' das obras de arte contemporânea, essa espécie de sensação de fim de festa, a maldita irrealidade banal de tudo(: encontrar o seu ''shtik'' (!,  (risos), aquela qualidade meio vulgar de Lindner (Melissa e eu ríamos ), mas sem aquela rigidez metálica, um pouco como Miró, mas ''sexy'' (.) -----, era incrível ouvir Berman falando: se eu fosse artista plástico, pediria licença para ir até o banheiro e se escutaria um tiro. Pouco depois, algumas daquelas pessoas disseram que queriam fumar e Berman as levou para o escritório no térreo; logo depois ela mandou alguém vir me chamar; desci e tirei um saco de marijuana da minha mochila. ----- Com quem você conseguiu tanta, K(?) -----, Melissa me perguntou. -----Minha amiga Betty Holmes, do Harlem (.) -----, respondi. Miss Berman coçou a cabeça e saiu de perto. ---- E você anda com tudo isso por aí (?) ----, perguntou Melissa novamente. ---- Não (eu disse: Eu vendo (.) ----, só Melissa ouviu: ria, como ela ria. E disse: ---- Quando Dennis Hopper estava dirigindo Junkie, a biografia de William Burroughs, Andy Wahrol disse à ele que deveria usar Mick Jagger no papel principal (risos), mas o papel principal já era do próprio Hopper (: uma briga feia (rss) -----, após fumarmos alguns baseados eu disse que era melhor eu subir para não revoltar as outras bartenders: dirigir-me para o elevador e, depois, caminhar entre as pessoas na pista de dança até o balcão do bar , foi como ziguezaguear através de todas as intrincadas passagens de um transatlântico durante uma tormenta.

sábado, 11 de julho de 2015

2

Naquela época, eu era capaz de farejar indícios da mente iniciática tanto na arte quanto na perversão; apenas mais tarde perceberia que isso era o equivalente de incendiar um apartamento só para assar um bife. A iniciação autêntica exige um fogo controlado, no lugar certo, mas nada que sirva de motivação para nenhum tipo de caretice reacionária. A família de Melissa achava que ela era a filha do Demônio; através dela conheci aqueles apartamentos em que um monte de gente atirada pelos cantos ficava se drogando e listando uns para os outros os canais de heroína da cidade. Eu só viria a usar quatro vezes na vida: e por sinal, todas foram muito boas. ----- O problema desses apartamentos é que sempre tem alguém querendo trepar com você Emoticon smile e você só está ali por causa da droga, certo (?) -----, Melissa disse. ----- ''TV Eye'', é um termo de garotas para se referirem à homens olhando para elas com olhar de desejo, como na música de Iggy Pop (Twat Vibe Eye: olhar de comedor) Estou com um, olha (.) -----, comentei, vestindo minha nova jaqueta de piloto de caça e beijando o pescoço dela. ----- Mas você acabou de me comer(.) -----, respondeu ela. ----- Comeria de novo, se não estivesse na minha hora (.) -----, e saímos, eu tentando convencê-la a ir para casa estudar ao invés de ficar circulando naquela pizzaria na esquina da Rua 7 com a Segunda Avenida, onde um bando de criminosos barra pesada transformava pó em dinheiro. Até o ar parecia mais claro e transparente naquele fim de tarde, saindo de um sebo com o exemplar em inglês da Doutrina da Não-Mente (do Dr. Daisetz Suzuki, que eu dei de presente para Melissa) e indo tomar o ônibus em Riverside Drive, naquela hora prolongada da luz diurna. Conversamos um pouco sobre Miss Berman: disse à Melissa que a não ser quando ela tinha realmente algum belo pensamento particular para ocupar meus ouvidos, eu vinha suportando cada vez menos as palestras dela; como era cansativa em questões teóricas (manhãs inteiras desapareciam nubladas dentro da minha cabeça enquanto Miss Berman especulava sobre arte contemporânea: os óculos escuros enconbrindo os olhos azuis, o cultivo do verdadeiro bom gosto cedendo espaço para ideologias confusas sobre sexo e política. ----- Eu adoraria poder falar mais e fazer pequenos discursos recheados de citações Emoticon smile quero ver se desenvolvo isso (.) -----, disse-me ela um dia ( a nomeação para o Conselho de Artes era sua meta na vida). Mas confesso que algumas vezes suas bobagens me agradavam e divertiam: ----- Disse à ele que minha amiga se chamava Elsa Holzer, tinha mais ou menos quarenta mas aparentava trinta, e que ela estava em busca de uma ''foda casual'' Emoticon smile e sabe o que ele disse (Miss Berman me perguntou, rindo) , ele disse: ----- Diga à sua amiga que ela está na cidade errada, todo mundo em Nova York é gay (.) -----, contou-me ela, me fazendo lembrar que uma vez perguntaram à Tennesse Williams se ele era gay e ele respondeu : ''Olha, digamos que eu percorro o cais(.) ''. Elza Holzer era uma morena clara do Cincinnatti, baixinha, redondinha e cheia de corpo, que ensinava filosofia política no Hunter College e defendia a idéia de que uma sociedade de massas era incapaz de produzir criminosos interessantes, e vivia citando a ''banalidade do mal'', de Hanna Arendt, para justificar a supressão das ''grandes individualidades'' da superfície do mundo. Vivia com as pernas enfiadas em meias calças pretas para esconder uma pequena varise na batata da perna e eu achei isso atraente na noite em que andei pela chuva até o Biltmore Hotel para um jantar no Overseas Press Corps. Sentada no bar, à meia-luz, Elsa estendia um pé encurvado para frente como faria uma bailarina e descansava um punhozinho rechonchudo nos quadris. ------ Não foi o pai de Elsa que morreu e deixou para ela uma imensa corretora de valores (?) -----, me perguntou Melissa depois, e eu não soube responder. Elsa tinha um sorriso simpático, sóbrio e terno, de dentes limpos e brilhantes, e os olhos de um verde escuro em que não havia malícia; uma criatura desajeitada, de boa índole, alegre, cheia de boas intenções, mas enfadonha; morava numa casa na 72 st e quando eu a vi na luz fiquei desanimado. Naquela noite, Victor Blythe apareceu com Barbara Berenson simulando um par rico e festivo rasgando dinheiro sob as estrelas; ele me ofereceu cocaína e eu não aceitei; depois disse que tinha um pick-me-up no quarto e eu rejeitei; Elsa Holzer e Miss Berman conversavam com Barbara sobre o novo assunto dela em sua revista de arte: Androgenia, e também uma reportagem exaustiva sobre quem possuía quais telas famosas nos Estados Unidos. Eu percebia Miss Berman tentando considerar tudo o que havia sob o sol com uma teimosia toda germânica, mas equivocada. Fui ficando desapontado com o fato de que boa parte do comportamento delas era um desperdício de energia com coisas tolas, sem quaisquer propósitos filosóficos sérios. Victor Blythe olhou para mim e disse: ----- O Moxfane que tomei meia hora atrás está dificultando minha concentração Emoticon smile a onda está meio demais (.) -----, e encostou sua perna na minha, e me encarou. Definitivamente não era um TV Eye. Quando contei isso para Melissa , ela riu e observou: ----- Se você comer esse cara está feito na vida Emoticon smile ele vai fazer de você uma divindade hindu(: uma deusa(!) hahahahaha(.... -----, como sempre, ela ria, ria. ------ E se não for exatamente isto(?) -----, mais risos. Victor Blythe tinha maçãs do rosto compactas, e sua tez era de uma cor não muito sadia para um homem de quase quarenta anos, com profundas rugas em longos sulcos saindo dos cantos dos olhos, como os que aparecem em vidro quebrado. Sua cortesia antiquada e cheia de insinuação comigo naquela noite tornava indispensável que eu respondesse qualquer uma de suas perguntas com desenvoltura e alacridade: ------ Quantos anos você tem (?), onde você nasceu(?), quem são seus pais (?) , você gosta de garotas (?), onde você aprendeu a falar italiano (?), onde você estava no 11 de setembro(?), Berman disse que você escreve: sobre o quê(?) ------, a ''banalidade'' dele não era apenas cosmética socializante, era o próprio vazio existencial falando; eu me perguntava se havia forma melhor de humilhar discretamente um publicitário fraudulento do que fazer sua imaginação parecer coisa corriqueira e ordinária, enjoativa e sem valor. Sua visão política era horripilante, e quando sugeriu que John Kennedy era corrupto eu me limitei a dizer, por pirraça e sem oferecer nenhum argumento: ----- Não, ele não era (.) -----, mas pseudo-intelectuais de mídia não costumam entender todo o alcance do sarcasmo das minhas análises políticas: apenas se compenetram das minhas divagações por meio da minha obra literária, e bufam como porcos agonizantes. E quando ocorre de serem também gays, estão sempre esperando que eu seja realmente o herói malvado e pervertido que veio do outro mundo apenas para enrabá-los. Argumentos! Explicações! ----- Agora vamos subir para o meu quarto e nos divertir um pouco(.) -----, Victor Blyhte disse, estendendo o convite à todos nós. Pensei nos seus garotinhos de cabelo vermelho. Barbara ficou parada diante de mim no elevador. Eu sentia-me verdadeiramente atraído por ela: ela era uma dama americana rica e justa e em momento nenhum discriminou minha condição sócio-econômica modesta; mas a Prof(a). Elza Holzer também me atraía naquele momento, e Miss Berman seguia me fazendo pensar em sodomia e felação com sua anca balançante. Perto delas, Melissa era só uma pirralha muito doida. Na verdade, muito raramente acontece de eu encontrar uma mulher e pensar depois: ''Incrível, mas nada nesta mulher me atraiu(.)''. Como pensei nos peitos de Barbara naquele vestido azul aberto nas costas. E a Prof(a). Elsa Holzer me fazia pensar que mulheres de quarenta anos baixinhas, bundudas e engraçadas em busca de uma ''foda casual'' deveriam ser as supremas rainhas do mundo. Se eu pudesse (pensava) passaria o resto da vida passeando entre mulheres altas de vozes sedosas e peitos pequenos e mulheres baixinhas e alegres com peitos grandes; além das mulheres de tamanho médio afetuosamente sensuais com peitos de tamanho médio e mulheres baixinhas com peitos pequenos e sotaque do Cincinnati e mulheres de tamanho médio com peitos médios e anca balançante e sotaque alemão; bem, isso sim que seria viver. E naquele momento era. Gostava do fato de Miss Berman não poder saber que eu estava digitando mentalmente tudo isso, ou que eu adoraria que ela se sentasse de cócoras sobre mim e rasgasse sua calcinha de elástico branco e moesse sua xota salgada na minha cara. Lá em cima havia um único aposento com janelas de vitrô na frente e no fundo, cujos vidros eram cobertos com papel impermeável; no centro havia um aquecedor; no canto mais próximo uma cama de casal com cabeceira de ferro pintada de branco; o canto oposto era uma espécie de armário com cortinas; e havia um sofá desses que afundam e um enorme banheiro de mármore com uma banheira de luxo de bordas douradas. Barbara perguntou onde diabos Victor estava indo quando viu ele entrar no banheiro e ele disse: ----- Vou tomar um banho rápido (.) ------, e se fechou ali dentro . Barbara deitou na cama e eu, Elsa e Miss Berman nos emparelhamos no sofá. Perguntei se podia fumar e ninguém fez objeção. Barbara me pediu um cigarro e logo todos estávamos fumando com o fim de descansar da excessiva racionalidade do jantar: o calculismo social, a mecanização das perguntas e respostas, o planejamento e a técnica do marketing existencial, a repressão do inconsciente; fumando em meio à nuvem de fumaça acumulada no teto, todos tínhamos a brecha necessária para sermos realmente românticos por um segundo e abrirmos a garrafa de carta blanca de Victor na cômoda ao lado da cama. ----- Aposto que ele tem grenadine aqui em algum lugar (.) -----, Barbara disse, abrindo o frigobar onde só encontrou os copos e gelo. Interfonou para o serviço do hotel e mandou subir limão, açúcar, gelo e grenadine. ----- Daiquiri (.) -----, ela disse, olhando nos meus olhos e me remetendo à imagens de grandes navegações, piratas hollywoodianos, Cuba e ótimos charutos e à biografia de Ernest Hemingway que ganhei de um tio meu e nunca li: ----- Prefiro mil vezes Faulkner (.) -----, disse para ele na ocasião -----, mas ainda assim sentia que todos precisávamos de algo mais forte, que todos tínhamos ainda algo de máquinas: máquina reminescente, máquina de conversar fiado, máquina de desejar, máquina romântica, máquina de foder, máquina da cultura; não éramos pessoas e sim sistemas de comportamentos cruzando dados automaticamente, e todo sistema para funcionar exige mediocridade e nenhuma grandeza. Trabalho em conexão com a arte sempre gera um excesso de banalidade (um Quinto de Império de banalidades: eu pensei , voltando meus olhos para Elsa ao meu lado no sofá: acho que foi nesse momento que a vi sob a luz, associei-a à Hannah Arendt e perdi definitivamente a vontade de comê-la; Barbara também tampouco queria comê-la; Victor era gay e Miss Berman era cem por cento hétero. Pobre Elsa!), agora ela estava no apartamento errado do hotel errado da cidade errada. ----- O que você tem escrito ultimamente, K(?) -----, Bárbara me perguntou. ----- Nada Emoticon smile mas no Domingo passado fui dar uma olhada na antiga casa de Norman Mailler no Brooklin Heights Emoticon smile li que após casar-se várias vezes ele morou só no andar de cima e alugou o debaixo e transformou a parede da frente em janela de vidro corrediço com vista para Manhattan e ficou hipnótico, uma vista espetacular, contraponto perfeito para o transe da criação literária Emoticon smile ali ele recebeu muita gente famosa, adorava ser paparicado Emoticon smile já eu não, detesto(: moro no alto de um prédio apocalíptico na West 9 th (perto da antiga casa de Mark Twain) e tenho uma não-vista mental do Hudson coberto por gás tóxico, e a única visita que recebi até hoje foi de Melissa em busca de um baseado e(... ------, assim que ouviu falar em Melissa, Bárbara me interrompeu e perguntou se éramos namorados. Respondi: ----- Não, mas ontem ela me levou para fazer compras na seção de camisas do Bloomingdale´s e eu acabei ganhando dela essa jaqueta de piloto de caça Emoticon smile adorei, acho que eu não teria desembolsado o dinheiro se tivesse que pagar por ela(: agora já não é só você que tem roupas bonitas no mundo, capisce(?) -----, ela riu; e eu decidi ser indiscreto: ------ E você, Barbara, não tem namorado (?) -----, ela corou minimamente e disse: ----- Que nada (e riu) desculpe, acabo de me lembrar de uma coisa engraçada (explicou) na verdade, não tem graça nenhuma Emoticon smile é apenas aquela expressão antiga: ''Chocolate Hershey, uma avenida de aventuras(.) '', sabe, andar com gays ''às vezes'' pode ser bem divertido (.) -----, tendo dito isto, Barbara se dobrou para a frente, as mãos sobre o rosto, gargalhando: ----- Sério, peço desculpas (.) -----, ela erguia seu copo de daiquiri cerca de três centímetros à frente dos olhos, limpando a garganta, ainda rindo um pouco. Continuou: ----- Desculpem(: se vocês tivessem visto o filme que Victor e eu assistimos ontem à tarde (... era ''enfiado no cu dela'' pra cá, ''na bunda dele'' pra lá, ''me mostre esse cuzinho apertado'', e assim por diante Emoticon smile meu Deus, desculpem (.) -----, agora ela ria educadamente, enquanto Elsa e Miss Berman, mais velhas do que ela, diziam com os olhos: ''Crianças(...)''. ----- E isso era uma história inteira(?) -----, perguntei à Barbara. ----- Sim, até mesmo bem elaborada Emoticon smile acredita nisto (?) -----, indagou-me. ----- Sério (?) ----, eu a observava pensar nas partes do filme de que ela se lembrava, tão inclinado para frente no sofá que parecia que a qualquer momento eu mergulharia no chão de taco e nadaria até seus pés sentada na cama. ----- Enfim, mas nada além de um história comum de sacanagem (.) ----, respondeu Barbara. ----- E você gosta (?) -----, insisti. ---- Sim (.) ----, ela respondeu, detonando meu coração como uma bomba atômica. Era o terceiro daiquiri de cada um de nós. Por um ou dois minutos, eu e Barbara fingimos que o outro não existia, até que ela começou a rir sozinha de novo. Mas eu achei que qualquer nova palavra que eu introduzisse sobre o assunto, agora, seria bruscamente cortada ou contornada na mesma hora. Calei-me. Barbara continuava (pensava comigo) fingindo não ser tão rica entre nós e procurando uma forma de existência benéfica para ela mesma e o mundo que não desafiasse as contradições internas do capitalismo: eu a achava realmente boa (e por mais idiotizado pelo amor que estivesse, o fato é que eu sempre a via andando pelo lado certo da solidão: esforçando-se em favor da criatividade, dos artistas iniciantes de talento, da música negra, dos ballets de Stravinski, da aquisição de quadros caríssimos, das reproduções de certas obras do Museu de Arte Moderna em sua revista, da loucura, de um novo artigo sobre ''androgenia'', do rum com grenadine e de um almoço no Les Plêiades (de táxi até a 76 com Madison Avenue), para o qual infelizmente eu não fui convidado. Quando Elsa Holzer perguntou à Barbara em que ramo de negócios seu pai atuava, ela respondeu vagamente: ---- Minha família está envolvida com fabricação de aviões (.) ----, enquanto eu me lembrava do meu passeio na tarde anterior por Greenwich Village em busca de idéias para o meu romance de seiscentas páginas; essa área da cidade era próxima à minha rua e abrigava alguns dos bares mais antigos de Nova York: o meu predileto era o predileto de Dylan Thomas, o White Horse Tavern, sempre cheio de um excedente de sub-literatos incultos procurando vaga nas revistas literárias da moda; mas o Peculier Club tinha mais de 400 variedades de cerveja e então eu sempre acabava indo parar lá depois. Olhava para algumas lojas com vitrines no caminho como se a qualquer momento fosse encontrar alguma idéia brilhante à venda (temendo não ter dinheiro suficiente para comprá-la: apenas um caderno, uma caneta e uma massa insuprimível de ruídos exteriores envolvendo meu quarto quando voltava. Os ruídos de Nova York! Segundo Mallarmé: '' presque tout le monde repúgne aux odeurs mauvaises; moins au cri (.) ''. Aqueles ruídos na West 9 th , quem os podaria e os expulsaria do território eleito da poluição sonora do mundo(?), e eram antes os ruídos dos gatilhos do que os dos carros, dos batedores de carteira correndo com suas navalhas debaixo da blusa do que os dos telefones e interfones, dos espancamentos raciais e cobranças de dívidas sujas com juros estratosféricos, dos casais desempregados se matando na frente de crianças apavoradas, da paranóia da máquina total do mundo conspirando para o aumento do absurdo. Isolada em sua cápsula de tinta, minha caneta ainda não podia deixar de ouvir aqueles barulhos exorbitantes: ela precisaria ser antes uma andorinha circulando no céu branco da página, conduzindo a palavra e o sangue para finalmente escrever '' Les grands actes qui sont aux Cieux''. Pelo menos (eu pensava) não tinha televisão no meu quarto, esse brinquedo para analfabetos, surdos, mudos, doentes, anti-Nietzsches, reverendos, padres , podres, ''croulants''. Eu ria por dentro, me perguntando de que tipo de lógica Miss Berman se valia para me convidar apenas para alguns daqueles ''encontros''; invariavelmente, lá estavam Barbara Berenson e Victor Blythe, deparando-se com a feminilidade sensual sem remissão dela: eu podia até mesmo cheirá-la no ar. A forma dos cabelos sempre na última moda e a cor particular dada ao rosto pelos tipos mais acertados de make, e ainda os decotes aumentando o efeito produzido pelo seu belo busto, contendo por osmose todas as extravagâncias diluídas (em rápida sucessão) em matéria de Wahrol, Living Theater, a cópula em plena cena, a filosofia de vida dos Stones, marchands italianos e máfia, minimal painting e Eletric Lady Land: um rastro de privilégios libidinosos democratizando-se de cima para baixo, de maneira polimorfa, imaginando-se nobre e primitivo ao mesmo tempo, combinando o lazer industrializado alienante com as luxuriosas invencionices de Versalhes, e a mesma facilidade erótica com que se copula em Samoa sob as flores de hibisco. Àquela altura, eu e Miss Berman discutíamos animadamente sobre o romantismo sombrio e esvaziado que tinha ficado daquilo tudo no mundo atual, e eu cheguei a sugerir que a origem do orientalismo na cultura ocidental não tinha nada a ver com os hippies americanos, e sim com os templários, com o fervor apaixonado dos templários pelos muçulmanos: vindo aqueles, numa linha de sucessão histórica perfeitamente rastreável na alta literatura européia e no sufismo, a serem substituídos por personagens como Lady Stanhope, R.L.Stevenson, Charles Baudelaire e Gauguin. ----- E agora, nos dias de hoje, todo o racismo, os vícios, as compulsões sexuais, o reacionarismo, com muito turismo no meio e bastante cor local(: e a impressão nítida de que apenas a ciência, a tecnologia e as práticas administrativas do Estado Democrático de Direito representam agora a identidade do Ocidente(: liberdade, fraternidade, igualdade, racismo, corrupção, fanatismo, mentiras, sexo anal, cocaína, moda, guitarras distorcidas, echn, reverb e assassinatos à queima-roupa(: KABOOOOOMMMM(!) -----, eu dizia, enquanto Miss Berman ria rente ao meu rosto, bêbada. Nós já estávamos quase nos agarrando, mas ela se recompôs pois se deu conta de que não deveria fazer aquilo em público, e sim no seu apartamento na 77 quase com a Fifth Avenue. Algo que aconteceu de maneira mais ou menos fulminante: Barbara se levantou da cama sobressaltada dizendo que havia mais de uma hora que Victor estava no banheiro e bateu na porta. Não houve resposta. A coisa apavorante foi que ela forçou a maçaneta e a porta estava aberta; então ela entrou no banheiro e encontrou Victor deitado na banheira de mármore completamente chapado, o canto da boca dele resvalando para fora d´água. Ela o agarrou rapidamente por baixo dos braços e gritou por ajuda: eu entrei no banheiro e nós o erguemos com alguma dificuldade. Foi uma visão realmente desagradável: Victor meio que acordava e fazia ''Ugghh''. E Bárbara se justificava, sem graça: ----- Desculpe, mas você estava se afogando, cherry(.) -----, levamos Victor de táxi até Westbury para encontrar o namoradinho dele que tinha ficado em casa para responder os e-mails de suas clientes pedindo para alterar horários no salão de beleza. Bárbara subiu com ele para ajudá-lo a se manter de pé e quando entraram no apartamento encontraram o cabeleireiro nu esperando para comê-lo. Assim Barbara deixou Victor lá e voltou para o táxi , dizendo: ---- Victor está muito além do off-Broadway e do seu tempo (risos) -----, quando eu e Miss Berman descemos do táxi na 77 e entramos no seu edifício, ela me empurrou contra o espelho do elevador e disse: ----- Eu amo o amor entre os jovens (.) -----, e no pegamos pela primeira vez. No apartamento, Berman se livrou da blusa e do sutiã e, num sussurro desesperado, ''ordenou'' que eu chupasse seus peitos. Obedeci: olhava nos olhos dela e depois para baixo, os olhos fixos no prazer invisível da minha mente: ----- Morde meus mamilos, K(: mas cuidado, devagar(.) -----, eu segui ''obedecendo'', esperando o momento certo para virá-la de costas e dar uma boa olhada. Mas a primeira cravada foi pela frente mesmo: longa, trêmula e cambaleante, como uma frase labiríntica de Faulkner; não lembro exatamente o que estava tocando, mas aquela espécie de jazz latino me supria como uma fonte universal e infalível de raios cósmicos. Eu tinha abaixado a cabeça entre as suas alvas coxas grossas e retirado seus sapatos de salto alto para beijar seus pés; nos seus grandes lábios um estouro simétrico de escarlate sugerindo uma carnação viva de sonho. Berman era carente, apesar de (segundo Melissa) estar de caso com aquele rapaz inglês que era podre de rico e novo na cidade e que, para todos os efeitos, ''não tinha dinheiro nenhum''; talvez ela não gostasse desta discrição, nele: Berman precisava satisfazer numerosos instintos de uma vez, precisava do calor, da presença e da visibilidade dos homens, e também da própria emancipação, de exercícios espirituais de resistência à dor, de continuidade tântrica e, sobretudo, de interesses distribuídos como cartas num jogo: precisava do Conselho de Artes do Estado de Nova York, precisava de lisonja, triunfo, poder! 

terça-feira, 30 de junho de 2015

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Eu absolutamente não sabia o que tinha ido fazer em Nova York; e em Los Angeles, depois, menos ainda. Apenas que deveria procurar Miss Berman assim que pisasse em NY, uma descendente de alemães à frente da contratação de pessoal e relações públicas de uma das boates mais disputadas na Time Square (mas se alguém não tivesse dito, eu não teria percebido). Havia desistido do garimpo, largado a faculdade e fugido de um relacionamento amoroso, e após dez dias meditando em jejum no escuro apareceu aquela oportunidade, se é que se pode chamar aquilo de ''oportunidade''... aaah mas como respirei feliz o ar infecto de NY pelos pálidos raios que escorriam da lua para minhas narinas, após um período inquieto de muita espera e a imensa e turbulenta travessia nas noites do ermo mexicano (nunca tive problemas em apontar uma arma de fogo para alguém, quando o assunto era salvar minha própria pele). Vinte e quatro anos e o sentimento recorrente de uma plenitude de vida próxima, possível e obsessivamente tangenciada, mas ainda não alcançada. Naquele momento, à janela do meu quartinho na zona oeste da cidade, clareada por luas elétricas barulhentas de faróis, postes e edifícios, eu era apenas minha mochila aberta no chão e a lembrança de Miss Berman me analisando da cabeça aos pés, me perguntando o que eu tinha achado da primeira noite de trabalho P.43; por um centésimo de segundo , minha única reação foi sentir o coração atravessado confusamente pela playlist daquela madrugada adentro: uma pulsação eletrônica ácida, psico-precipitada, que evocava corpos retorcidos quicando euforicamente em todas as direções, dentro da luz negra que roubava a claridade da claridade, renascendo na superfície da sombra do outro lado do espelho. Nada conseguia ser menos impressionante aos meus olhos do que aquela colossal parafernália de som pilotada por aqueles patéticos djs; tive certeza que nada de interessante aconteceria na minha vida durante o expediente de trabalho. No meu modo de ver, minha invasão dos States por terra tinha sido apenas uma metáfora para fatos e sensações. O ar ambiente no P.43 estava saturado de partículas em suspensão, cocaína parecia estar sendo soprada pelo ar condicionado, em meio à uma clientela jovem muito rica selecionada pela aparência na entrada. A única coisa que me lembro de ter dito, ao longo de toda aquela primeira noite, foi uma explicação técnica para uma modelo loira piradaça dependurada no balcão do bar que não tirava os olhos de mim; ainda assim, ela me parecia infinitamente distante, e nada gentil: ----- Agave-azul (eu disse), uma planta parecida com um cacto que produz um piña imensa(: é com essa piña que se faz a tequila (.) -----, e servi o drink para ela. Nenhuma colega de trabalho entendia direito meu inglês, mas a garota me agradeceu a explicação. O rango que Miss Berman mandou vir da cozinha pra mim estava muito bom  (tinha carne), e eu preparei tantos drinks diferentes naquela primeira noite que provavelmente errei a mão em vários, ainda muito cansado por todas as viagens do começo  da semana e a peregrinação pela zona oeste em busca de um quarto. Trabalhei até às dez da manhã e saí caminhando insone pela Times Square, pensando que no seu fundamento, na sua área original, Nova York era minúscula como uma província; só que o Prometeu (o herói grego) cuja estátua admiravelmente feia considerei por alguns instantes no Rockefeller Center, ao drogar-se como eu (assim que cheguei no quarto) anteviu em sonho as retas de arranha-céus que subsistem por preguiça do doador de sonhos em destruir-lhes a imagem. O ar que eu respirava em Manhattan, naquele momento, era uma mistura de monóxido de carbono, oxigênio, azoto, gordura saturada, restos hospitalares de lipo-aspiração, publicidade e heroína: o abutre que roía o fígado da estátua. E, apesar do meu esforço para ser indiferente, disfarçando minha emoção na rua, decidido a não desviar o olhar de possíveis problemas e da Migra (polícia de imigração) , meu rosto infantil corava violentamente, meus cabelos loiros se eriçavam à cada passo, e eu sentia uma espécie de náusea, uma contração na base do crânio, lá onde os nervos, os músculos e os vasos sanguíneos se entrelaçam. O sopro gelado e fétido de Manhattan passando por cima destes meus tecidos sensíveis. Eu me consolava dizendo-me que devia estar satisfeito com meus negócios e pouco me lixando para os dos outros, enquanto um suor frio esquisito orvalhava minhas costas no ônibus, as rodas do veículo enveredando bruscamente naquela curva imensa da 72 nd Street (odeio metrôs). O que me impedia de avaliar bem as situações em que eu me metia era o fato de não me dar conta da minha pouca idade e nenhuma qualificação profissional, desprovido que estava da proteção e dos privilégios que, em Nova York, só seriam possíveis pra mim mediante um rendimento anual de , no mínimo, trinta ou cinquenta milhões de dólares, sendo aceito (com alguma dose de sociopatia)  como sócio nos melhores clubes e círculos sociais artísticos e dispondo de táxis, limousines, carros esportivos, garotas de programa e modelos, porteiros e seguranças, assessoria de imprensa e outros recursos protetores ilícitos. Mas para mim NY se resumia ao meu quarto, aos ônibus e ao P.43, que por acaso eu poderia encontrar caminhando na Time Square personificado na figura de Miss Berman, balzaquiana cosmopolita cuja anca sempre me fazia pensar em sodomia e felação. A vista que eu tinha do meu quarto na West 9 th era o retrato da falência da estabilidade burguesa americana: uma curva de asfalto de onde saíam canais de esgoto e calçadas imundas cheias de latas de lixo; edifícios de tijolos com elevadores caindo aos pedaços e hastes metálicas de antenas nos terraços; e mais ao oeste havia o rio Hudson entre eu e as indústrias poluidoras de Nova Jersey. Tomei uma lata de grapefruit e adormeci na cama; dormi até às 16 h, quando acordei com sede por causa do baseado; pareceu-me durante algum tempo que a vida indistinta do inconsciente quisesse atardar-me no sono e minha cabeça ainda lassa enchia-me de imagens contextualizantes: em algumas manhãs, lá pelas dez ou onze da manhã, pouco antes de encerrar meu expediente atrás do balcão do bar de um dos quatro andares do P.43, Miss Berman chegava, fresca como a manhã, vestindo tons pastel combinados com couro preto com incrível competência: ----- Fred vai me ligar às oito da manhã pra saber que horas vamos sair (: Barbara Berenson já ligou e disse que se a gente saísse depois do meio-dia ela iria junto, mas ninguém está esperando muito desse filme (: de táxi até 860 (Broadway 860, na Rua 17, esquina nordeste do Union Square Park, onde ela por sinal alugou todo o terceiro andar para fazer a redação da sua revista de arte (.) ---- , ela disse, falando ao mesmo tempo com todos e ninguém, obrigando-me a repetir mentalmente suas frases depois para que eu entedesse alguma coisa: nunca dominei o inglês direito. Assim foi que, combinando algumas de suas frases ditas em dias diferentes, me dei conta de que ela era colecionadora de arte. Naquela hora quase todo mundo já tinha saído: os garçons, os seguranças, os djs e os clientes; o P.43 continuava ostensivamente aberto, talvez com uma das bartenders não-americanas que trabalhavam comigo já de roupa trocada tomando uma por conta da casa. Meu serviço era tirar as toalhas de todas as mesas e pôr as cadeiras em cima delas à medida que a clientela restante fosse indo embora, para que as negras da limpeza pudessem vir passar a tarde limpando os carpetes e sofás e passando pano e encerando as pistas de dança. Depois disto, eu saía andando à esmo por Manhattan, após passar em frente ao escritório de Miss Berman perto do hall de entrada do edifício. Algumas vezes, queimava uma beata de haxixe perto de uma escada de incêndio que dava numa espécie de passagem após um lance de escadas de ferro verde, nos fundos do prédio. Colocava meus óculos escuros e iniciava minha jornada através da rarefação do espaço novaiorquino: a idéia de promoção prometéica insuflando-me a ânsia de subir muito mais na escalation social até a atmosfera livre do Pecado Primitivo, na pureza do azul a-histórico sobre os arranha-céus; sentindo-me inteiramente disponível na solidão precedente deste espaço para abraçar alguma universitária peituda no Central Park. ----- A propósito, K, porque você não tenta uma bolsa de estudos (?) -----, me perguntou Melissa Kent, um dia, ao sermos apresentados por Miss Berman no Mc´Donalds da Avenida (-). Ela era uma perfeita universitária peituda americana, estudava artes no Barnard College, em frente à universidade de Colúmbia. ''Porque eu sou ilegal. Porque eu odeio estudar. Porque na estreita cisterna que chamam de universidade os raios espirituais apodrecem como palha, e a culpa é desses sistemas embolorados; em nome dessa mesma lógica, em nome desses mesmos sistemas embolorados, é que vos digo: a vida universitária fede(!)''. Obviamente eu não disse isto. Eu disse: ----- O Lobo do Manegement Universitário é o mesmo no mundo inteiro (: só serve pra cultuar índices e rankings, fazer inventários de artigos publicados e comemorar com champagne cada posição galgada nas listas internacionais (: a posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e departamentos, vence a quantidade, não importa o conteúdo (: nessa batalha de números, acadêmicos criam fábricas de artigos que ninguém lê, assinam trabalhos uns dos outros,citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos sem valor (: multiplicam-se eventos vazios e revistas científicas inúteis, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para o marketing, dos livros para os anúncios de página inteira nos jornais e as palestras TED, caminho mais curto para a tv (.) -----, eu disse. Melissa ria, ria. Eu de fato não tinha interesse nenhum em estudar, minha vida em Manhattan era a vida noturna, terminando o trabalho ao amanhecer e dormindo de tarde: a única coisa que eu desejava era uma vida de bacana e uma fluência de dólares, mas não os dólares suados sendo ganhos e recolhidos no final do mês,como na Rua 149, mas os dólares que eram ostensivamente rasgados pela granfinada novayorkina nas noite do P.43, caminhões de dólares sendo gastos e transformados em luz azul marinho giratória e roupas da última moda e pó e falsas declarações de amor recitadas com indiferença nas suítes dos melhores hotéis de Nova York (mas mesmo essa vida, eu só a desejava como combustível imaginário e demiúrgico para a prática do sonho lúcido: eu via Melissa Kent aparecer no P.43 com um homem diferente à cada noite, antes de ser apresentado formalmente à ela. E ia dormir de manhã no meu quarto em West Side com a imagem dos seus peitos imensos girando em volta do meu pau duro e na minha cabeça. Eu estava perdido para o mundo e ela viria a ser meu primeiro canal de heroína em Nova York. Talvez por isso, naquela tarde, eu tenha ido observar um pouco de arquitetura nas proximidades da faculdade dela, e na Colúmbia; fumei uma ponta no pátio quadrangular em frente à Low Library enquanto observava a futura intelligentsia dos Estados Unidos mantando aula fora das salas, com aquelas caras de jornalistas gays que pagam pra serem enrabados. Pulitzer aos melhores do jornalismo ( eram onze horas da manhã de um Domingo, agora, e a boa gente de cor do Harlem se punha à caminho das igrejas; mais tarde, no Bar Paris, alguém ligou o som cadenciado de uma antiga balada chamada Bottom Blues e assim eu me envolvi na minha primeira confusão em solo novayorkino: ----- Há 400 milhões de armas de fogo nos Estados Unidos (.) -----, disse um preto na mesa ao lado da minha, aparentemente disposto a promover a paz. ------ Ei você dois (disse o dono do bar atrás do balcão) não vão brigar por causa de mulher aqui (.) -----, ele disse, se dirigindo ao interlocutor do negro , um homem alto e moreno com cabelos castanhos emplastados na cabeça, olhando para Betty com os olhos negros e frios com um certo brilho maldoso. ----- Quem é ela (?) ----, perguntei ao negro do meu lado. -----Me chamo Betty Holmes (.) -----, ela mesma respondeu , com uma certa dificuldade. ----- Só mais uma puta do Cásper (disse o homem de cabelos aplastados, erguendo-se da cadeira), vou enfiar minha faca nela(!) ------, Betty grunhiu e correu para perto de mim: ----- Não deixe esse cucaracha nojento me machucar (!) -----, implorou ela, com voz de pavor. ----- Vou matá-la, porra(!) -----, repetiu o cucaracha. Nos levantamos e andamos até a divisão que separava as duas salas. Nos olhamos nos olhos e a boca dela estava entreaberta, passando a ponta da língua nos lábios para fazer o batom brilhar; empinou os seios e meneou as cadeiras, usando todos os encantos da sua raça para me inspirar. ----- O que você fez pra ele, Betty (?) -----, perguntei. Antes que ela respondesse, o negro puxou uma pistola automática da cintura e tirou a faca do homem. ----- Só porque ela é negra também (?) -----, resmungou o cucaracha indignado. A palavra ''negra'', na boca dele, enfureceu o preto: vidros estilhaçaram e o som do disparo ecoou na sala. Mas não era isso que eu queria saber quando fiz a pergunta à Betty; pensava apenas que ela ficaria caída por mim ao me ver vestido de bartender no P.43: agora eu imaginava minha nova amiga de salto alto e vestido de renda preto dançando comigo na pista de dance de Ibiza do segundo andar, indiferente ao que tinha feito de errado com o cucaracha. ''Afinal'', eu me perguntava ''quem nunca passou a mão  num quilo de pasta base de alguém só pra levantar um dinheirinho rápido (?) ''. Anus africanus: comeria Betty ali mesmo, no escritório de Miss Berman depois que ela saísse, lá pelas onze da manhã, sem ter que pagar nada por isto. ----- Nunca vão me deixar entrar no P.43(.) -----, Betty disse, mas no meu sonho eu era do crime e isso fazia com que ela me amasse o suficiente para acreditar cegamente em tudo que eu podia fazer por ela. No entanto, não era nada disto que Miss Berman tinha em mente para mim, como comprovei nos meses que se seguiram. Metade das vezes eu acordava de tarde no meu quarto na West 9 th todo melecado por causa do sonho, problemas de limpeza que eu resolvi descobrindo uma lavanderia chinesa na Avenida Lexington, além de comprar meias e cuecas e camisas e calças na Terceira Avenida sob o elevado. Eu não estava nem um pouco infeliz naqueles dias, muito à vontade em Manhattan, o Prometeu do Rockefeller Center insistindo em violar os segredos da minha consciência, instalando máquinas literárias de toda espécie na área do meu cérebro, impulsionando meu sono  e suas ramificações inespaciais e atemporais, onde gotejavam todas as possibilidades de realização do insólito,do não-programado, da anarquia ultra-individualista. Os ''happenings'' que eu propunha aos arranha-céus de Manhattan, durante minhas caminhadas à esmo, era a superação poética, no plano mais fundamental, dos vôos oficiais mais importantes que eu via passar sobre aqueles prédios. ''Pobres arranha-céus massificados'', eu pensava ''precisam da consolação do meu pau grande e latejante, do caos ígneo-espermático esporrado pela minha glande em suas vidraças espelhadas, transmitindo-lhes o canto ambíguo-secreto das sereias do Hudson, trazendo-lhes boas notícias do inferno da perdição, por exemplo, o fim de alguma guerra suja no Oriente Médio: ----- A sina MAIOR... do Oriente MÉDIO... é ser Ásia MENOR (?) -----, me perguntou Melissa Kent, já bem humorada no seu leito na emergência do hospital católico de Manhattan, após confessar que eu tinha sido a única pessoa a quem ela podia pedir ajuda sem ficar constrangida marcada e estigmatizada pro resto da vida, por causa daquela overdose de heroína; a cinco portas de distância havia uma mulher loira claramente morta, com um olhar de horror no rosto enquanto seu boletim de sinais vitais registrava : ''Temperatura: 37; pressão: 12\8; taxa respiratória: 18; pulso: 60 '', mesmo seu sangue estando tão concentrado no fundo do seu corpo que parecia que ela estava deitada numa poça de cinco centímetros de tinta azul. ---- Você transaria com uma garota morta , K(?) ----, Melissa perguntou de novo. ---- Ela é bem bonita(.) ----, eu disse, olhando para o cadáver da loira. ----- Eu estava me referindo a mim, idiota (.) ----, essas coisas, eu as registrava como um interlúdio de paz e reflexão. Respondi à ela: ----- Tem um mês que eu sonho todas as tardes em chupar os seus peitos (.) -----, ela riu e pediu que eu me acalmasse e soubesse esperar, agora que estava tão próximo de alcançar meu objetivo. ----- Posso pelo menos ver eles(?) -----, pedi, mas ela disse que ainda não. Para me acalmar, comecei a brigar com duas enfermeiras: uma era a jamaicana que estava escrevendo boletins; a outra, uma velha irlandesa navegando na internet. ----- GO AHEAD, MAKE MY DAY(!!) ----, gritei. A irlandesa, aparentemente, tinha uma barba espessa que raspava deixando apenas um cavanhaque tipo gay hispânico. ''Se há um modo melhor de ligar o FODA-SE para o mundo (pensei) eu o desconheço (.) ''. ----- Não é problema nosso (ela disse) a menina já está medicada e ainda não pode comer nada (: nada a fazer a não ser esperar (.) -----, em todo caso, eu tinha feito as duas rirem: ---- Há falta de enfermeiras por aqui, caso voce não tenha percebido (.) -----, disse a jamaicana. Mas eu tinha percebido: enfermeiras do caribe colombiano, das Filipinas e do leste europeu; nenhuma americana, muito menos uma americana branca. Voltei para perto de Melissa no leito: ----- Quando a seita de culto à supremacia branca que a irmã de Nietzsche fundou no Paraguay emergir da floresta, seus membros pelo menos já terão onde arrumar emprego (.) ----, eu disse, com um inebriado ar de superioridade ária e romana, e uma clara pitada de excitação juvenil ao tirar algumas revistas da minha mochila, cujos títulos Melissa começou a ler em voz alta: ----- Piranhas VI, Show de Pernas, Max, Fox, Lábios; O que é essa aqui(?), O Melhor da Alta Sociedade, Abundância, Club, Gemidos, Veludo, Alta Sociedade, Ostentação, Por Trás de Tudo, Para Cavalheiros(... mas pra quê tantas revistas pornô (?) ----, ela perguntou. ----- Avenida ***, na ****, eles vendem revistas velhas bem baratinho (: ''VAI, MAMA ESSE CARALHO E DEPOIS EU ENFIO ELE TODO NO SEU CU, VOCÊ VAI FICAR LOUCA DE TESÃO '', é um dos diálogos da ''Gemidos'' (: eu decorei (.) -----, respondi. ----- E você é viciado em pornografia (?) -----, ela perguntou de novo. ----- Não, sou viciado em transmutação de energia psíquica (.) é a minha religião (.) -----, expliquei. Ela disse O QUÊ (?), a mão branquinha na alavanca de câmbio, (----- Não esperava (.) -----, eu disse; a coxa branca esguia saindo sob o lençol branco do leito: e ela baixava um pouco os ombros , afundando a cabeça no travesseiro , e mordia os lábios por causa do esforço concentrado e mexia o braço até ficar reto em relação ao cotovelo. ----- Ahhhhhhhhh K, porque voce não disse logo (.) -----, (e logo depois: ----- Veja se não está vindo ninguém (.) ----, e então eu disse para ela dar uma olhada já que eu não ia gozar: por causa disso, desmoronavam em sua mente quaisquer objeções que ela possivelmente faria em exibir publicamente o seu futuro brinquedo de foder: ----- Dá pra ver ele daqui, lindo e bem grandão -----, mas não aconteceu tudo  de uma vez, e sim pouco a pouco, na noite do hospital até o alvorecer, em que parecia não haver mais uma divisão do tempo, e nenhum plano de observação fixo, a não ser o da substância inflamável que escorria pelas veias do momento, e, fosse o que fosse, eu estaria seguindo o seu fluxo; e quando eu olhava pela janela a vida que eu estava levando para chegar a um momento assim, sentia que teria que fazer um lance bem arriscado e corajoso com minha linguagem indecifrada pela tribo , e então , se o sol daquela manhã agora brilhava, ele brilhava demais, ou, se era ainda de noite no hospital, era um noite muito obscura, e toda a organização do mundo era apenas uma parte ínfima da maquinação oculta dos vários níveis de atenção que eu manipulava dentro da minha cabeça, e qualquer coisa que estivesse naturalmente depositada no mundo à minha volta tornava-se vazia e artificial, pelo simples fato de ser relegada à periferia da minha consciência, pela exigência existencial peculiarmente absoluta do foco devorador do meu espírito.