Eu absolutamente não sabia o que tinha ido fazer em Nova York; e em Los Angeles, depois, menos ainda. Apenas que deveria procurar Miss Berman assim que pisasse em NY, uma descendente de alemães à frente da contratação de pessoal e relações públicas de uma das boates mais disputadas na Time Square (mas se alguém não tivesse dito, eu não teria percebido). Havia desistido do garimpo, largado a faculdade e fugido de um relacionamento amoroso, e após dez dias meditando em jejum no escuro apareceu aquela oportunidade, se é que se pode chamar aquilo de ''oportunidade''... aaah mas como respirei feliz o ar infecto de NY pelos pálidos raios que escorriam da lua para minhas narinas, após um período inquieto de muita espera e a imensa e turbulenta travessia nas noites do ermo mexicano (nunca tive problemas em apontar uma arma de fogo para alguém, quando o assunto era salvar minha própria pele). Vinte e quatro anos e o sentimento recorrente de uma plenitude de vida próxima, possível e obsessivamente tangenciada, mas ainda não alcançada. Naquele momento, à janela do meu quartinho na zona oeste da cidade, clareada por luas elétricas barulhentas de faróis, postes e edifícios, eu era apenas minha mochila aberta no chão e a lembrança de Miss Berman me analisando da cabeça aos pés, me perguntando o que eu tinha achado da primeira noite de trabalho P.43; por um centésimo de segundo , minha única reação foi sentir o coração atravessado confusamente pela playlist daquela madrugada adentro: uma pulsação eletrônica ácida, psico-precipitada, que evocava corpos retorcidos quicando euforicamente em todas as direções, dentro da luz negra que roubava a claridade da claridade, renascendo na superfície da sombra do outro lado do espelho. Nada conseguia ser menos impressionante aos meus olhos do que aquela colossal parafernália de som pilotada por aqueles patéticos djs; tive certeza que nada de interessante aconteceria na minha vida durante o expediente de trabalho. No meu modo de ver, minha invasão dos States por terra tinha sido apenas uma metáfora para fatos e sensações. O ar ambiente no P.43 estava saturado de partículas em suspensão, cocaína parecia estar sendo soprada pelo ar condicionado, em meio à uma clientela jovem muito rica selecionada pela aparência na entrada. A única coisa que me lembro de ter dito, ao longo de toda aquela primeira noite, foi uma explicação técnica para uma modelo loira piradaça dependurada no balcão do bar que não tirava os olhos de mim; ainda assim, ela me parecia infinitamente distante, e nada gentil: ----- Agave-azul (eu disse), uma planta parecida com um cacto que produz um piña imensa(: é com essa piña que se faz a tequila (.) -----, e servi o drink para ela. Nenhuma colega de trabalho entendia direito meu inglês, mas a garota me agradeceu a explicação. O rango que Miss Berman mandou vir da cozinha pra mim estava muito bom (tinha carne), e eu preparei tantos drinks diferentes naquela primeira noite que provavelmente errei a mão em vários, ainda muito cansado por todas as viagens do começo da semana e a peregrinação pela zona oeste em busca de um quarto. Trabalhei até às dez da manhã e saí caminhando insone pela Times Square, pensando que no seu fundamento, na sua área original, Nova York era minúscula como uma província; só que o Prometeu (o herói grego) cuja estátua admiravelmente feia considerei por alguns instantes no Rockefeller Center, ao drogar-se como eu (assim que cheguei no quarto) anteviu em sonho as retas de arranha-céus que subsistem por preguiça do doador de sonhos em destruir-lhes a imagem. O ar que eu respirava em Manhattan, naquele momento, era uma mistura de monóxido de carbono, oxigênio, azoto, gordura saturada, restos hospitalares de lipo-aspiração, publicidade e heroína: o abutre que roía o fígado da estátua. E, apesar do meu esforço para ser indiferente, disfarçando minha emoção na rua, decidido a não desviar o olhar de possíveis problemas e da Migra (polícia de imigração) , meu rosto infantil corava violentamente, meus cabelos loiros se eriçavam à cada passo, e eu sentia uma espécie de náusea, uma contração na base do crânio, lá onde os nervos, os músculos e os vasos sanguíneos se entrelaçam. O sopro gelado e fétido de Manhattan passando por cima destes meus tecidos sensíveis. Eu me consolava dizendo-me que devia estar satisfeito com meus negócios e pouco me lixando para os dos outros, enquanto um suor frio esquisito orvalhava minhas costas no ônibus, as rodas do veículo enveredando bruscamente naquela curva imensa da 72 nd Street (odeio metrôs). O que me impedia de avaliar bem as situações em que eu me metia era o fato de não me dar conta da minha pouca idade e nenhuma qualificação profissional, desprovido que estava da proteção e dos privilégios que, em Nova York, só seriam possíveis pra mim mediante um rendimento anual de , no mínimo, trinta ou cinquenta milhões de dólares, sendo aceito (com alguma dose de sociopatia) como sócio nos melhores clubes e círculos sociais artísticos e dispondo de táxis, limousines, carros esportivos, garotas de programa e modelos, porteiros e seguranças, assessoria de imprensa e outros recursos protetores ilícitos. Mas para mim NY se resumia ao meu quarto, aos ônibus e ao P.43, que por acaso eu poderia encontrar caminhando na Time Square personificado na figura de Miss Berman, balzaquiana cosmopolita cuja anca sempre me fazia pensar em sodomia e felação. A vista que eu tinha do meu quarto na West 9 th era o retrato da falência da estabilidade burguesa americana: uma curva de asfalto de onde saíam canais de esgoto e calçadas imundas cheias de latas de lixo; edifícios de tijolos com elevadores caindo aos pedaços e hastes metálicas de antenas nos terraços; e mais ao oeste havia o rio Hudson entre eu e as indústrias poluidoras de Nova Jersey. Tomei uma lata de grapefruit e adormeci na cama; dormi até às 16 h, quando acordei com sede por causa do baseado; pareceu-me durante algum tempo que a vida indistinta do inconsciente quisesse atardar-me no sono e minha cabeça ainda lassa enchia-me de imagens contextualizantes: em algumas manhãs, lá pelas dez ou onze da manhã, pouco antes de encerrar meu expediente atrás do balcão do bar de um dos quatro andares do P.43, Miss Berman chegava, fresca como a manhã, vestindo tons pastel combinados com couro preto com incrível competência: ----- Fred vai me ligar às oito da manhã pra saber que horas vamos sair (: Barbara Berenson já ligou e disse que se a gente saísse depois do meio-dia ela iria junto, mas ninguém está esperando muito desse filme (: de táxi até 860 (Broadway 860, na Rua 17, esquina nordeste do Union Square Park, onde ela por sinal alugou todo o terceiro andar para fazer a redação da sua revista de arte (.) ---- , ela disse, falando ao mesmo tempo com todos e ninguém, obrigando-me a repetir mentalmente suas frases depois para que eu entedesse alguma coisa: nunca dominei o inglês direito. Assim foi que, combinando algumas de suas frases ditas em dias diferentes, me dei conta de que ela era colecionadora de arte. Naquela hora quase todo mundo já tinha saído: os garçons, os seguranças, os djs e os clientes; o P.43 continuava ostensivamente aberto, talvez com uma das bartenders não-americanas que trabalhavam comigo já de roupa trocada tomando uma por conta da casa. Meu serviço era tirar as toalhas de todas as mesas e pôr as cadeiras em cima delas à medida que a clientela restante fosse indo embora, para que as negras da limpeza pudessem vir passar a tarde limpando os carpetes e sofás e passando pano e encerando as pistas de dança. Depois disto, eu saía andando à esmo por Manhattan, após passar em frente ao escritório de Miss Berman perto do hall de entrada do edifício. Algumas vezes, queimava uma beata de haxixe perto de uma escada de incêndio que dava numa espécie de passagem após um lance de escadas de ferro verde, nos fundos do prédio. Colocava meus óculos escuros e iniciava minha jornada através da rarefação do espaço novaiorquino: a idéia de promoção prometéica insuflando-me a ânsia de subir muito mais na escalation social até a atmosfera livre do Pecado Primitivo, na pureza do azul a-histórico sobre os arranha-céus; sentindo-me inteiramente disponível na solidão precedente deste espaço para abraçar alguma universitária peituda no Central Park. ----- A propósito, K, porque você não tenta uma bolsa de estudos (?) -----, me perguntou Melissa Kent, um dia, ao sermos apresentados por Miss Berman no Mc´Donalds da Avenida (-). Ela era uma perfeita universitária peituda americana, estudava artes no Barnard College, em frente à universidade de Colúmbia. ''Porque eu sou ilegal. Porque eu odeio estudar. Porque na estreita cisterna que chamam de universidade os raios espirituais apodrecem como palha, e a culpa é desses sistemas embolorados; em nome dessa mesma lógica, em nome desses mesmos sistemas embolorados, é que vos digo: a vida universitária fede(!)''. Obviamente eu não disse isto. Eu disse: ----- O Lobo do Manegement Universitário é o mesmo no mundo inteiro (: só serve pra cultuar índices e rankings, fazer inventários de artigos publicados e comemorar com champagne cada posição galgada nas listas internacionais (: a posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e departamentos, vence a quantidade, não importa o conteúdo (: nessa batalha de números, acadêmicos criam fábricas de artigos que ninguém lê, assinam trabalhos uns dos outros,citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos sem valor (: multiplicam-se eventos vazios e revistas científicas inúteis, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para o marketing, dos livros para os anúncios de página inteira nos jornais e as palestras TED, caminho mais curto para a tv (.) -----, eu disse. Melissa ria, ria. Eu de fato não tinha interesse nenhum em estudar, minha vida em Manhattan era a vida noturna, terminando o trabalho ao amanhecer e dormindo de tarde: a única coisa que eu desejava era uma vida de bacana e uma fluência de dólares, mas não os dólares suados sendo ganhos e recolhidos no final do mês,como na Rua 149, mas os dólares que eram ostensivamente rasgados pela granfinada novayorkina nas noite do P.43, caminhões de dólares sendo gastos e transformados em luz azul marinho giratória e roupas da última moda e pó e falsas declarações de amor recitadas com indiferença nas suítes dos melhores hotéis de Nova York (mas mesmo essa vida, eu só a desejava como combustível imaginário e demiúrgico para a prática do sonho lúcido: eu via Melissa Kent aparecer no P.43 com um homem diferente à cada noite, antes de ser apresentado formalmente à ela. E ia dormir de manhã no meu quarto em West Side com a imagem dos seus peitos imensos girando em volta do meu pau duro e na minha cabeça. Eu estava perdido para o mundo e ela viria a ser meu primeiro canal de heroína em Nova York. Talvez por isso, naquela tarde, eu tenha ido observar um pouco de arquitetura nas proximidades da faculdade dela, e na Colúmbia; fumei uma ponta no pátio quadrangular em frente à Low Library enquanto observava a futura intelligentsia dos Estados Unidos mantando aula fora das salas, com aquelas caras de jornalistas gays que pagam pra serem enrabados. Pulitzer aos melhores do jornalismo ( eram onze horas da manhã de um Domingo, agora, e a boa gente de cor do Harlem se punha à caminho das igrejas; mais tarde, no Bar Paris, alguém ligou o som cadenciado de uma antiga balada chamada Bottom Blues e assim eu me envolvi na minha primeira confusão em solo novayorkino: ----- Há 400 milhões de armas de fogo nos Estados Unidos (.) -----, disse um preto na mesa ao lado da minha, aparentemente disposto a promover a paz. ------ Ei você dois (disse o dono do bar atrás do balcão) não vão brigar por causa de mulher aqui (.) -----, ele disse, se dirigindo ao interlocutor do negro , um homem alto e moreno com cabelos castanhos emplastados na cabeça, olhando para Betty com os olhos negros e frios com um certo brilho maldoso. ----- Quem é ela (?) ----, perguntei ao negro do meu lado. -----Me chamo Betty Holmes (.) -----, ela mesma respondeu , com uma certa dificuldade. ----- Só mais uma puta do Cásper (disse o homem de cabelos aplastados, erguendo-se da cadeira), vou enfiar minha faca nela(!) ------, Betty grunhiu e correu para perto de mim: ----- Não deixe esse cucaracha nojento me machucar (!) -----, implorou ela, com voz de pavor. ----- Vou matá-la, porra(!) -----, repetiu o cucaracha. Nos levantamos e andamos até a divisão que separava as duas salas. Nos olhamos nos olhos e a boca dela estava entreaberta, passando a ponta da língua nos lábios para fazer o batom brilhar; empinou os seios e meneou as cadeiras, usando todos os encantos da sua raça para me inspirar. ----- O que você fez pra ele, Betty (?) -----, perguntei. Antes que ela respondesse, o negro puxou uma pistola automática da cintura e tirou a faca do homem. ----- Só porque ela é negra também (?) -----, resmungou o cucaracha indignado. A palavra ''negra'', na boca dele, enfureceu o preto: vidros estilhaçaram e o som do disparo ecoou na sala. Mas não era isso que eu queria saber quando fiz a pergunta à Betty; pensava apenas que ela ficaria caída por mim ao me ver vestido de bartender no P.43: agora eu imaginava minha nova amiga de salto alto e vestido de renda preto dançando comigo na pista de dance de Ibiza do segundo andar, indiferente ao que tinha feito de errado com o cucaracha. ''Afinal'', eu me perguntava ''quem nunca passou a mão num quilo de pasta base de alguém só pra levantar um dinheirinho rápido (?) ''. Anus africanus: comeria Betty ali mesmo, no escritório de Miss Berman depois que ela saísse, lá pelas onze da manhã, sem ter que pagar nada por isto. ----- Nunca vão me deixar entrar no P.43(.) -----, Betty disse, mas no meu sonho eu era do crime e isso fazia com que ela me amasse o suficiente para acreditar cegamente em tudo que eu podia fazer por ela. No entanto, não era nada disto que Miss Berman tinha em mente para mim, como comprovei nos meses que se seguiram. Metade das vezes eu acordava de tarde no meu quarto na West 9 th todo melecado por causa do sonho, problemas de limpeza que eu resolvi descobrindo uma lavanderia chinesa na Avenida Lexington, além de comprar meias e cuecas e camisas e calças na Terceira Avenida sob o elevado. Eu não estava nem um pouco infeliz naqueles dias, muito à vontade em Manhattan, o Prometeu do Rockefeller Center insistindo em violar os segredos da minha consciência, instalando máquinas literárias de toda espécie na área do meu cérebro, impulsionando meu sono e suas ramificações inespaciais e atemporais, onde gotejavam todas as possibilidades de realização do insólito,do não-programado, da anarquia ultra-individualista. Os ''happenings'' que eu propunha aos arranha-céus de Manhattan, durante minhas caminhadas à esmo, era a superação poética, no plano mais fundamental, dos vôos oficiais mais importantes que eu via passar sobre aqueles prédios. ''Pobres arranha-céus massificados'', eu pensava ''precisam da consolação do meu pau grande e latejante, do caos ígneo-espermático esporrado pela minha glande em suas vidraças espelhadas, transmitindo-lhes o canto ambíguo-secreto das sereias do Hudson, trazendo-lhes boas notícias do inferno da perdição, por exemplo, o fim de alguma guerra suja no Oriente Médio: ----- A sina MAIOR... do Oriente MÉDIO... é ser Ásia MENOR (?) -----, me perguntou Melissa Kent, já bem humorada no seu leito na emergência do hospital católico de Manhattan, após confessar que eu tinha sido a única pessoa a quem ela podia pedir ajuda sem ficar constrangida marcada e estigmatizada pro resto da vida, por causa daquela overdose de heroína; a cinco portas de distância havia uma mulher loira claramente morta, com um olhar de horror no rosto enquanto seu boletim de sinais vitais registrava : ''Temperatura: 37; pressão: 12\8; taxa respiratória: 18; pulso: 60 '', mesmo seu sangue estando tão concentrado no fundo do seu corpo que parecia que ela estava deitada numa poça de cinco centímetros de tinta azul. ---- Você transaria com uma garota morta , K(?) ----, Melissa perguntou de novo. ---- Ela é bem bonita(.) ----, eu disse, olhando para o cadáver da loira. ----- Eu estava me referindo a mim, idiota (.) ----, essas coisas, eu as registrava como um interlúdio de paz e reflexão. Respondi à ela: ----- Tem um mês que eu sonho todas as tardes em chupar os seus peitos (.) -----, ela riu e pediu que eu me acalmasse e soubesse esperar, agora que estava tão próximo de alcançar meu objetivo. ----- Posso pelo menos ver eles(?) -----, pedi, mas ela disse que ainda não. Para me acalmar, comecei a brigar com duas enfermeiras: uma era a jamaicana que estava escrevendo boletins; a outra, uma velha irlandesa navegando na internet. ----- GO AHEAD, MAKE MY DAY(!!) ----, gritei. A irlandesa, aparentemente, tinha uma barba espessa que raspava deixando apenas um cavanhaque tipo gay hispânico. ''Se há um modo melhor de ligar o FODA-SE para o mundo (pensei) eu o desconheço (.) ''. ----- Não é problema nosso (ela disse) a menina já está medicada e ainda não pode comer nada (: nada a fazer a não ser esperar (.) -----, em todo caso, eu tinha feito as duas rirem: ---- Há falta de enfermeiras por aqui, caso voce não tenha percebido (.) -----, disse a jamaicana. Mas eu tinha percebido: enfermeiras do caribe colombiano, das Filipinas e do leste europeu; nenhuma americana, muito menos uma americana branca. Voltei para perto de Melissa no leito: ----- Quando a seita de culto à supremacia branca que a irmã de Nietzsche fundou no Paraguay emergir da floresta, seus membros pelo menos já terão onde arrumar emprego (.) ----, eu disse, com um inebriado ar de superioridade ária e romana, e uma clara pitada de excitação juvenil ao tirar algumas revistas da minha mochila, cujos títulos Melissa começou a ler em voz alta: ----- Piranhas VI, Show de Pernas, Max, Fox, Lábios; O que é essa aqui(?), O Melhor da Alta Sociedade, Abundância, Club, Gemidos, Veludo, Alta Sociedade, Ostentação, Por Trás de Tudo, Para Cavalheiros(... mas pra quê tantas revistas pornô (?) ----, ela perguntou. ----- Avenida ***, na ****, eles vendem revistas velhas bem baratinho (: ''VAI, MAMA ESSE CARALHO E DEPOIS EU ENFIO ELE TODO NO SEU CU, VOCÊ VAI FICAR LOUCA DE TESÃO '', é um dos diálogos da ''Gemidos'' (: eu decorei (.) -----, respondi. ----- E você é viciado em pornografia (?) -----, ela perguntou de novo. ----- Não, sou viciado em transmutação de energia psíquica (.) é a minha religião (.) -----, expliquei. Ela disse O QUÊ (?), a mão branquinha na alavanca de câmbio, (----- Não esperava (.) -----, eu disse; a coxa branca esguia saindo sob o lençol branco do leito: e ela baixava um pouco os ombros , afundando a cabeça no travesseiro , e mordia os lábios por causa do esforço concentrado e mexia o braço até ficar reto em relação ao cotovelo. ----- Ahhhhhhhhh K, porque voce não disse logo (.) -----, (e logo depois: ----- Veja se não está vindo ninguém (.) ----, e então eu disse para ela dar uma olhada já que eu não ia gozar: por causa disso, desmoronavam em sua mente quaisquer objeções que ela possivelmente faria em exibir publicamente o seu futuro brinquedo de foder: ----- Dá pra ver ele daqui, lindo e bem grandão -----, mas não aconteceu tudo de uma vez, e sim pouco a pouco, na noite do hospital até o alvorecer, em que parecia não haver mais uma divisão do tempo, e nenhum plano de observação fixo, a não ser o da substância inflamável que escorria pelas veias do momento, e, fosse o que fosse, eu estaria seguindo o seu fluxo; e quando eu olhava pela janela a vida que eu estava levando para chegar a um momento assim, sentia que teria que fazer um lance bem arriscado e corajoso com minha linguagem indecifrada pela tribo , e então , se o sol daquela manhã agora brilhava, ele brilhava demais, ou, se era ainda de noite no hospital, era um noite muito obscura, e toda a organização do mundo era apenas uma parte ínfima da maquinação oculta dos vários níveis de atenção que eu manipulava dentro da minha cabeça, e qualquer coisa que estivesse naturalmente depositada no mundo à minha volta tornava-se vazia e artificial, pelo simples fato de ser relegada à periferia da minha consciência, pela exigência existencial peculiarmente absoluta do foco devorador do meu espírito.